O Espírito Santo é Mulher

Ano passado ministrei alguns cursos de Mitologia Afro-Brasileira em Ramos, para a população do entorno, na unidade SESC de lá. O curso era gratuito e atraía gente das mais diversas orientações. Num sábado – que nem era dia de curso – pediram uma aula extra. Fomos falar sobre Ibeji, os orixás gêmeos que são sincretizados com Cosme e Damião. No fim do encontro, uma senhora dos seus 70 anos pediu delicadamente a palavra. Era uma aluna nova, que tinha aparecido, sentado, e não tinha se apresentado. A senhora então nos contou muitas coisas sobre sua experiência com crianças – tinha sido mãe adotiva de mais de 30 delas ao longo da vida. Fez menção especial à perda precoce do neto de 10 anos poucos dias antes. Era uma pessoa com o ar cansado, encurvada, e com uns olhos muito castanhos e marejados. De todas as coisas que essa senhora contou, o testemunho de uma visão 35 anos antes nos deu a dimensão do porquê aquele encontro extra precisava ocorrer.

Em primeiro lugar se apresentou como evangélica. 35 anos se serviço em nome do Senhor. Contou que num dos primeiros cultos que foi, já era uma mulher, estava orando, naquele momento fogo-no-pé da Deus É Amor, quando um vento enorme abriu as portas da igreja e – todos em transe pela presença do Espírito Santo – viu entrar pela porta, dançando como se fossem ondas, toda de azul, uma mulher muito bonita e inopinadamente espiritual. A mulher passou por ela, dançou até o altar, saudou o altar dançando e em seguida desapareceu.

Tempos depois, essa senhora identificou a dançarina de azul que dançava como as ondas, como a própria Yemanjá. Dali por diante – ela disse – começou a sua missão de pegar crianças e às vezes até adultos para cuidar. Exatamente como Yemanjá faz, nos seus mitos, com diversos orixás abandonados.

Disse que nunca tinha falado aquilo para ninguém, porque sabia que na igreja não a entenderiam. Mesmo a irmã dela, que estava presente no momento, se espantou. Ficamos todos muito tocados, porque além de toda história de vida comovente de dedicação ao outro, a mulher ainda tinha um evento insólito de combinação improvável: um orixá manifestado numa igreja evangélica que veio para saudar o altar em respeito. E uma evangélica que reconhecia o valor disso.

No fim da aula, ela disse: Se encontro alguém caído, e se esse alguém puder falar e quiser aceitar meu auxílio, não importa se quer levantar pra ir ao centro espírita ou à igreja. Vou ajudar da forma que puder pra ela chegar até lá. O julgamento não tem que ser meu. A obra é de Cristo.

A Alma e o Dragão Adormecido

Na busca por um significado para a vida, o próprio espaço interior assume a dimensão do Universo. A essa dimensão profunda da experiência de existir nós damos o nome de alma. Guardiã da tarefa de aprimorar-se, vir a ser, a alma tem em si já tudo aquilo que procura. É mesmo um grande paradoxo, que os antigos alquimistas conheciam e chamavam de Mercurius; mas, como pode algo que contém em si tudo quanto exista estar à procura do que lhe falta?

Vou lhe contar um pequeno segredo que, mesmo revelado aqui, não perderá a sua força, posto que só os firmes de espírito o entenderão verdadeiramente: como a semente que contém em si já todo o futuro da árvore, e um passado que remonta ao surgimento da vegetação, assim é Mercurius, assim é a alma: carrega toda a herança anímica do destino vital, a seiva do inconsciente coletivo corre em suas veias, ao mesmo tempo que guarda a possibilidade futura de desenvolvimento. O trabalho correto é regar à chuva e fornecer luz a essa alma, algo que exige dedicação e engajamento, para fazer frente à displicência e ignorância: teus olhos estão vendados e, cego, tu adentras agora a cripta misteriosa de todos os mistérios, onde arde em enxofre o hálito de um dragão adormecido há mil anos. Este dragão deve ser atiçado e em seguida, morto a pauladas. Tu serás verdadeiramente reconhecido diante do inefável quando, tendo matado o dragão, reconheceres teu próprio espírito morto ali.

Então a dimensão inteiramente nova da alma se abrirá diante dos teus olhos de repente desvendados, e como Paulo, tu exclamarás: eu era cego, agora vejo!

Porém, se te parecem demasiado enigmáticas estas palavras, deita e sonha comigo esta noite. Eu poderei assumir qualquer forma no teu sonho, porque serei teu guia e serei como o cenário da tua alma. Teus olhos cobertos te farão tropeçar e duvidar do que seja possível. O dragão estará te esperando para vomitar sobre ti o enxofre. Eu te indicarei o caminho da cripta.

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A simbólica alquímica retratada no texto acima diz respeito à primeira fase da obra, que os alquimistas chamaram Nigredo: a matéria morre para dar vida ao novo. Se você quiser conhecer mais sobre alquimia lida simbolicamente, pode se juntar a nós no curso Jung e o Tarot: O Caminho do Alquimista. Nele, utilizamos as lâminas do tarot como vaso simbólico de projeção do conteúdo anímico, provocando o psiquismo a reinventar sua relação consigo mesmo e com o mundo.

Os detalhes da abordagem estão aqui

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