A Inocência Original

A coragem de enfrentar julgamentos e trazer todo um novo conjunto de possibilidades para o campo da experiência interpretável, para serem experimentadas por outras pessoas, é essa a façanha do herói.

 Joseph Campbell

É um fato que pioneiros em qualquer área de atuação sejam tratados por levianos por aqueles que estão confortáveis no estabelecido, que sua conduta seja associada ao erro., com a consequente estigmatização. Todo aquele que tenta propor novas regras num jogo, outra perspectiva de pensamento, novos modos de ver a situação, geralmente é alvo de preconceito. Galileu Galilei ousou professar que a Terra girava em torno do Sol, rebatendo a doutrina geocêntrica imposta pela Igreja, e amargou o cárcere pelo resto dos seus dias por ter ousado sugerir — pelo menos na cabeça dos que o prenderam — que a criação divina é que estivesse girando em torno de um astro que foi durante muito tempo associado a divindades pagãs. Foi um corte entre o pensamento dogmático religioso e o modo de ver científico. A partir dali, Kepler pôde formular questões sobre a mecânica celeste que abriram precedente teórico para Isaac Newton chegar até a concepção de gravitação universal, modelo de pensamento que usamos ainda hoje.

As narrativas mitológicas também têm algo a dizer sobre isso. Pra citar dois exemplos clássicos, temos o mito de Prometeu, titã responsável pela criação humana, que roubou de Zeus o fogo e o entregou aos homens, a incauta Eva, que prova do fruto do conhecimento.

Prometeu é condenado a sofrer que uma águia lhe arranque o fígado todos dias enquanto está acorrentado a uma rocha, enquanto Eva e seu companheiro sofrem uma série de sanções, especialmente terem de abandonar o idílio e ganharem a vida com suor no rosto, labutando sobre a Terra. Com o fogo, Prometeu entrega aos homens o controle sobre seu próprio destino, transferindo-lhes o conhecimento da forjaria, do cozimento dos alimentos, da proteção contra os predadores, da clarividência. Eva, no mito do Gênesis, é expulsa da perfeição paradisíaca por ter, junto com Adão, ousado tornar-se igual a Deus, conhecedora do bem e do mal.

As atitudes nos dois relatos são de pura inocência. Eva, para ter comido do fruto, necessitou ser enganada pela astuta serpente; e o que é a serpente senão outra face do mesmo deus que diz para comer de todo fruto do Jardim, menos da árvore que está no centro — ou seja, instaurando a desconfiança e a curiosidade, que são a própria base do conhecimento? Prometeu quer levar à máxima obediência a designação do próprio Zeus de que deveria criar a humanidade; o que seria da humanidade, afinal, se não tivesse o conhecimento da preparação do fogo? Para obedecer plenamente a Zeus, Prometeu necessita desobedecê-lo. Aliás, a etimologia arcaica de Prometeu é pro “antes” e manthano  “aprender”, ou seja, aquele que aprende antes.

A pena imposta aos que têm ideias e decidem pô-las em prática é o trabalho. Nenhuma ideia útil veio à tona sem que com isso se precisasse devotar-lhe sacrifícios diários (fígado de Prometeu) e busca por conhecimento (expulsão do paraíso/zona de conforto). Pode parecer uma obviedade dizer isso, mas as maiores verdades são, afinal, bastante óbvias: benefícios plenos exigem sacrifícios verdadeiros.

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Conheça

A JORNADA DO HERÓI

JD Lucas é mitólogo e escritor. Coordenador da Mythological RoundTable© Rio de Janeiro, núcleo da Joseph Campbell Foundation no Brasil. Ministra cursos no campo da mitologia e do simbolismo comparado. Criou o primeiro curso de Introdução ao Mito, além de O Caminho do Alquimista (utilizando o Tarô de Marselha como tema) e do curso de Mitologia Afro-Brasileira. Atua junto a instituições públicas e privadas na disseminação da mitologia como possibilidade de experiência do conhecimento. Para parcerias e contratações, envie e-mail para jdlucas.contato@gmail.com.

Jung e os Alcoólicos Anônimos

Uma espantosa cadeia de acontecimentos une um diagnóstico sincero de Jung a um sujeito viciado em álcool. Este evento se desdobraria até redundar na criação da Sociedade dos Alcoólicos Anônimos. Confira a leitura da comovente carta que BILL W. remete a Jung, deixando-o ciente de sua participação na história do A.A.

Leitura do psicólogo clínico José Raimundo Gomes

E a resposta de Jung

Esta postagem é dedicada ao meu amigo Rogério.