O Erro e a Experiência de Significado

Na maior parte das vezes, eramos não porque queremos. As escolhas entre o ato certo e o errado advém da tensão entre duas realidades, e nem sempre (quase nunca, na verdade) seus limites são tão claros: a primeira delas é a do menor prejuízo: qual a implicação negativa da minha ação?, e a segunda, do maior benefício: de que modo, como posso e quantos e quais irão se beneficiar dessas ações? Em síntese, de que modo minhas ações podem minimizar prejuízos e maximizar benefícios?

Aos benefícios em proveito próprio com prejuízo para o outro, chamamos egoísmo. Ao benefício em prejuízo próprio chamamos altruísmo.

O egoísmo eleva a própria importância, funciona quando estamos fragilizados: é uma defesa para fazer crescer a energia psíquica. Percebam que todo megalomaníaco conserva, secretamente, um complexo de inferioridade. Mas o egoísmo é prejudicial, naturalmente, porque nos põe em diferença artificial em relação ao outro. O inconsciente compensa isso com atos falhos que demonstram as fraquezas, para justamente se contrapor à força da confissão (em palavras, comportamentos, desdobramentos). É a potência da sombra.

A sombra é aquele aspecto errático e potente da personalidade que ainda não foi compreendido, e que exige integração na personalidade: quanto mais envolvido em situação de responsabilidade, mais o indivíduo será acossado pelos conteúdos que não encontram via de acesso à consciência. Jung disse: o forte deve poder ser de algum modo fraco e o inteligente, estúpido, do contrário se torna inverossímil e degenera em pose e fanfarronice. Ou seja, é preciso se envolver conscientemente em atividades que desafiam o modo como lidamos e compreendemos a vida. Buscar acerto, mas sobretudo errar na tentativa de superação de nossas limitações, na re-significação de nossos dilemas, na educação emocional, onde quer que sejamos fracos. É à partir disso que nos faremos mais completos, bem dispostos e saudáveis.

Como o Criador que da sombra ordena a luz, a consciência, se quiser realizar o ato de estar plenamente viva e atuante, e portanto menos suscetível à sombra e os erros involuntários, precisa assumir a operacionalidade da Criação; em termos simbólicos, isto significa a divisão da criação em 6 dias, o dar forma e nomear o mundo, que equivale a trazer à consciência o que estava oculto, latente no cenário da Criação. É a criação desse próprio cenário. Os alquimistas sabiam disso quando buscavam fazer da pedra bruta o Lapis philosophorum: para eles, a obra do Criador estava inacabada e precisava ser retomada à partir de pontos específicos.

O trabalho da drª Nise da Silveira e seus assistentes com os internos do hospital no Engenho de Dentro-RJ fundou a terapia ocupacional e humanizou a loucura, procurando fornecer-lhe elementos em que pudesse trabalhar para extrair experiências de sentido. Os internos, dentre outras atividades, eram incentivados a demonstrar o que sentiam e pensavam através do desenho e da pintura. Não havia uma regra para pintar ou para desenhar, o que sempre se quis foi justamente a manifestação espontânea daqueles psiquismos, de modo que o conteúdo sombrio, afetivo, mal elaborado, pudesse passar à consciência e de algum modo tomar forma, ser mais real e por isso mesmo de algum modo enfraquecido em seus aspectos sabotadores. Um dos internos, no entanto, não demonstrava qualquer interesse ou melhora no trabalho com o desenho e a pintura. Notando que se tratava de um sujeito agressivo, deram a ele, ao invés das tintas e pincéis, um naco grande de argila molhada para que pudesse trabalhar à partir daquilo que tinha de mais proeminente, mas que constantemente o sabotava: a força. Funcionou! Lá estava o sujeito entretido em espancar o barro para dar-lhe forma, e com isso, a carga pesada que ele carregava sem porquê encontrou uma via de acesso à consciência, via elaboração criativa.

Jung nos mostrou e favoreceu que descobríssemos por conta própria, cada vez mais, que toda loucura é uma doença de sentido. Somos seres instintivamente conectados a uma dimensão maior da experiência do significado, e quando essa conexão se quebra, estamos perdidos da totalidade. No caso do sujeito do barro, o que se precisou fazer foi um ajuste de linguagem. Não era a solução da pintura e do desenho o imperativo, mas de fato, o Criar que realmente importava! Identificar-se com o criador no que diz respeito à elaboração da própria relação da personalidade com a matéria amorfa do inconsciente.
Os erros, tropeços e quedas as quais experimentamos constantemente, seja em auto sabotagens, desvios de moral com arrependimento e erros gerais em relação ao outro, são consequências provocadas pela irrupção de conteúdo sombrio. A sombra é a guardiã do que temos de mais duvidoso em termos morais e éticos. Mas é também a grande guardiã da possibilidade futura, da re-significação do caminho, da integração do erro.

Joseph Campbell nos diz “a caverna que você tem medo de entrar é onde está o seu tesouro“, ou seja, se buscamos ter coragem para enfrentar o desafio de nos criamos enquanto indivíduos, precisamos estar dispostos a aceitar essa dimensão obscura da experiência, não como fim, mas como meio para o tesouro interior do si-mesmo, da realização em plenitude de nossas potencialidades.

Não existe uma sabedoria definitiva que nos proteja de qualquer tipo de erro. A sombra sempre erá projetada onde a luz não pode penetrar. Mas pensando de modo positivo, cometer diversos e profundos erros hoje pode garantir no futuro ser capaz de dar conselhos com propriedade, mas de viver em paz consigo. Se pretendemos nos tornar mais sábios um dia, devemos fazer questão de arriscar tendo em vista a possibilidade e muitas vezes a certeza do erro! Aí então chegaremos a poder afirmar um dia que aprendemos alguma coisa errando, e portanto, aprendemos de verdade. Qualquer um que tenha tentado interpretar sonhos já se defrontou com erros enormes por um longo tempo até conseguir de fato entender linhas gerais e saber se orientar pelo terreno movediço de nosso espaço onírico. Aceitar e agir sobre os próprios erros significa transforma-los em algo menor diante da multiplicidade de experiências de significado que podemos ter na vida. Se desejamos experimentar a vida em plenitude, esse desafio vale o risco.

Um abraço, JD Lucas

Pesquisador em Mitologia, Psicologia Analítica e Simbolismo, coordenador da Mythological RoundTable Rio de Janeiro, grupo para o estudo do mito capitaneado pela Fundação Joseph Campbell, como sede na Califórnia – EUA. A iniciativa se expande para todos os continentes, difundindo o mito como reservatório de experiências significativas de conhecimento. Além do INTRODUÇÃO AO MITO, também ministra os cursos de MITOLOGIA AFRO-BRASILEIRA e O CAMINHO DO ALQUIMISTA, utilizando as lâminas do Tarô de Marselha.

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