A Alma e o Dragão

Na busca por um significado para a vida, o próprio espaço interior assume a dimensão do Universo. A essa dimensão profunda da experiência de existir damos o nome de alma. Guardiã da tarefa de aprimorar-se, vir a ser, a alma tem em si já tudo aquilo que procura. É mesmo um grande paradoxo, que os antigos alquimistas conheciam e chamavam de Mercurius; mas, como pode algo que contém em si tudo quanto exista estar à procura do que lhe falta?
Vou lhe contar um pequeno segredo que, mesmo revelado aqui, não perderá a sua força, posto que só os firmes de espírito o entenderão verdadeiramente: como a semente que contém em si já todo o futuro da árvore, e um passado que remonta ao surgimento da vegetação, assim é Mercurius, assim é a alma: carrega toda a herança anímica do destino vital, a seiva do inconsciente coletivo corre em suas veias, ao mesmo tempo que guarda a possibilidade futura de desenvolvimento. O trabalho correto é regar à chuva e fornecer luz a essa alma, algo que exige dedicação e engajamento, para fazer frente à displicência e ignorância: teus olhos estão vendados e, cego, tu adentras agora a cripta misteriosa de todos os mistérios, onde arde em enxofre o hálito de um dragão adormecido há mil anos. Este dragão deve ser atiçado e em seguida, morto a pauladas. Tu serás verdadeiramente tu diante do inefável quando, tendo matado o dragão, reconheceres teu próprio espírito morto ali.
Então a dimensão inteiramente nova da alma se abrirá diante dos teus olhos, de repente desvendados, e como Paulo, tu exclamarás: eu era cego, agora vejo!
Porém, se te parecem demasiado enigmáticas estas palavras, deita e sonha comigo esta noite. Eu poderei assumir qualquer forma no teu sonho, porque serei teu guia e serei como o cenário da tua alma. Teus olhos cobertos te farão tropeçar e duvidar do que seja possível. O dragão estará te esperando para vomitar sobre ti o enxofre, mas eu te indicarei o caminho da cripta.

*

A simbólica alquímica retratada no texto acima diz respeito à primeira fase da obra, que os alquimistas chamaram Nigredo: a matéria morre para dar vida ao novo. Se você quiser conhecer mais sobre alquimia lida simbolicamente, pode se juntar a nós no curso Jung e o Tarot: O Caminho do Alquimista. Nele, utilizamos as lâminas do tarot como vaso simbólico de projeção do conteúdo anímico, provocando o psiquismo a reinventar sua relação consigo mesmo e com o mundo.

Os detalhes da abordagem estão aqui

VEJA

 

2 comentários sobre “A Alma e o Dragão

  1. Bom dia a todos, Somos aprendizes dedicados da arte hermética. Porem não querendo contestar vossa escrita, mas refletindo sobre a imagem de São Jorge o dragão não deve ser dominado e contido para não vomitar fogo. vencido porem ele nunca morre?

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