O Ódio como Ferramenta

Considero o ódio um instrumento muito eficaz de auto-percepção, e portanto, de auto conhecimento. Ele dá a medida de uma insatisfação que é toda fervura, toda transbordamento para as outras instâncias emocionais: ameaça a tolerância no que ela tem de tola, ameaça a esperança no que ela tem de servil, ameaça o estabelecido no que ele tem de cômodo, e com isso, pode gerar revolução. Sem ódio não se chega a lugar algum quando tudo está errado.

Mas não acredito em vingança. A vingança – mesmo o gozo com o infortúnio do outro – parece a contraface do verdadeiro ódio mobilizador, porque é o ódio que se quer ódio, não deseja por os pés para fora de si, e gira eternamente em volta do próprio rabo, remoendo as mesmas questões, incapaz de quebrar o ciclo do auto envenenamento para restaurar a própria paz, muito além do outro e de quem na verdade sempre fomos.

O verdadeiro ódio se parece com o amor: pode nos fazer melhor do que somos. A vingança, o sentimento de vingar algo não. É um expediente demasiado grave para não derreter algo precioso que trazemos conosco. O que a vingança faz – esse Abel redivivo das emoções humanas – é transbordar o ácido que nos tornamos para dentro dos nossos próprios estômagos. Uma personalidade vingativa é uma personalidade ulcerada.

JD Lucas é mitólogo e escritor.

3 comentários sobre “O Ódio como Ferramenta

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