A Herança Mítica e Histórica da África

Desde os anos 60 a UNESCO vêm pesquisando e publicando a História Geral da África – da pré História aos dias atuais. O Trabalho conta com 8 volumes de aproximadamente 1.000 páginas cada.
 
Para isso, foi formado um comitê de pesquisadores africanos de outras nacionalidades e continentes, num projeto ambicioso e eu diria até heroico de desafiar os compêndios anteriores escritos pautados no preconceito do continente tribal, sem aprofundamento e valores culturais e espirituais genuínos em si, sempre comparados com os demais povos de outros continentes em contextos pejorativos. A exceção de uma dúzia de grandes pensadores europeus e americanos, e mesmo dentro do continente, por preguiça ou indolência, o que se produziu sobre África versava sempre do ponto de vista da colonização e da diáspora, ignorando toda riqueza interior, do povo em sua terra, verdadeiro em si.
 
Todas as etapas do trabalho foram estruturadas por esse comitê, que também ficou responsável pela sua redação e coleta de material – através da arqueologia, consultas às bibliotecas particulares de sábios árabes e africanos, e sobretudo, da tradição oral (essa mesma tão discutida e tão imprescindível para se compreender a África).
 
Iniciei o estudo da História Geral da África pelo primeiro volume, que expõe a metodologia e a Pré História do continente, e pretendo concluir a leitura dentro de 3 anos. Parece muito tempo, mas são 3 milhões de anos relatados nos livros. 3 milhões de anos em 3 anos não parece uma média ruim.
 
É possível ter o domínio absoluto da História de qualquer coisa que seja? Naturalmente não. Meu objetivo ao iniciar esse estudo é reparar em mim as mesmas questões de ordem coletiva que mobilizaram a coleta de documentos e testemunhos e a criação da obra. África é um fenômeno complexo, e longe de apresentar-se numa ideia única de “comunidades tribais atrasadas em relação à civilização ocidental”, está se revelando, muito a muito, como a verdadeira matriz de todo conhecimento e experiências, da qual tudo o mais surgiu.
 
Voltar-se para a origem de tudo é um sintoma de necessidade de cura: os antigos xamãs ainda contam os Mitos de Origem quando querem restabelecer a saúde do enfermo. Com isso, o mundo inteiro é recomposto simbolicamente no indivíduo. Pois é isso que estou buscando. parece que a revelação dessa ferida pode ajudar a cicatrizá-la. Outro motivo, que decorre desse, é a curiosidade genuína que a África me inspira, e o reconhecimento que tenho nela, como origem, como busca, como reconhecimento. Quero conhecer a vida para melhor experimentá-la, e isso norteia toda as minhas buscas, que estão para além, sempre, da mera teoria. Se eu não puder extrair experiência do que estudo, que valor poderá ter estudar?
 
Achei por bem comunicar isso porque, como seres coletivos, precisamos nos articular e o conhecimento só avança se for passado adiante, através das trocas e suas manutenções. Com isso, vou me permitir vez ou outra mencionar algo aqui, numa espécie de leitura comentada, e abordar mais ostensivamente nos cursos que ministro, o assunto. Espero poder dar ao assunto a abrangência, a beleza e a verdade que merece.
As obras podem ser baixadas gratuitamente no site da UNESCO, e há também uma versão síntese em dois volumes de 800 páginas, aproximadamente, elaborado pela própria equipe da UNESCO, com dados objetivos dos 8 volumes.

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Finalmente, entrego a palavra ao editor geral do primeiro volume, Joseph Ki-Zerbo, sobre o valor que a obra tem para a constituição de um verdadeiro exercício de ciência e senso de responsabilidade que um estudo desse porte fornece.
 
“A história é uma fonte na qual poderemos não apenas ver e reconhecer nossa própria imagem, mas também beber e recuperar nossas forças, para prosseguir adiante na caravana do progresso humano. Se tal é a finalidade desta História Geral da África, essa laboriosa e enfadonha busca, sobrecarregada de exercícios penosos, certamente se revelará fecunda e rica em inspiração multiforme. Pois em algum lugar sob as cinzas mortas do passado existem sempre brasas impregnadas da luz da ressurreição.”
Um abraço a todos e todas
Aquela paz!

JD Lucas

Mitólogo e Escritor

3 comentários sobre “A Herança Mítica e Histórica da África

  1. Grande JD Lucas, além de tudo Você cada vez escreve melhor. Escreve muito claro e objetivo a ponto de que qualquer pessoa que leia seus textos fique com muita vontade de conhecer mais sobre o assunto tratado. Abraços e continue.

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