A Questão Fundamental do Símbolo

Quem faz perguntas insuficientes, não deve se queixar de respostas insuficientes.

Quando você se abre verdadeiramente para o que o inconsciente tem a lhe mostrar, inaugura uma atitude criativa no território do caos emocional, e com isso contribui para o surgimento da disposição correta, ordenadora, onde as coisas podem ser o que são sem atropelos. É assim em toda mitologia: a matéria a ser criada é caótica, jaz em profunda estagnação, até que A Consciência se desprende e ordena que se Faça a Luz, que se separem os céus da terra, que endureça o chão. Antes desse ato primordial, o Criador e a matéria inicial participavam um do outro sem definição ou limite. Mas algo foi capaz de, saindo de si, diferenciar-se de si mesmo, e com isso, instaura-se na existência. Eis o mistério do nascimento da consciência em cada um de nós. Eis a Vida, que existe em si e para fora de si mesma.

Nossas emoções são grandes indicadores de força psíquica. Elas são movimento, e como tudo o que se move, são energia. Quanto mais formos capazes de trazer do campo caótico as emoções de modo espontâneo, não automatizado, mais estaremos munidos de potência psíquica, e portanto, mais conscientes, menos suscetíveis a nós mesmos. Parece complexo, mas não é impossível de ser feito. Estar um passo atrás da precipitação.

Todos nós, quando nos deitamos, podemos sonhar com questões que estão sendo gestadas em nosso psiquismo. No dia seguinte, essas situações serão inopinadamente expostas. É assim que ocorre, o inconsciente está sempre um passo a frente da nossa zona de conforto, porque o seu papel é o de nos desafiar a uma maior compreensão e mais ampla experiência de nós mesmos. O inconsciente oferece o mapa da jornada, a consciência é que o percorre.

Emoções são como plantas, precisam fincar raízes, espalhar gavinhas, cobrir-se de folhas, para então tornarem-se sentimento, fecundarem a terra escura e fértil do inconsciente, de onde brota tudo o que há.

É claro, o inconsciente existe antes de seu nome, é estado amorfo da matéria psíquica, gestando sua própria criação até que a consciência, esta parturiente das ideias, ajuda a trazer a criança à luz. Quando nomeamos o inconsciente, quando buscamos compreender sua linguagem, estamos ordenando um caos que é todo nosso. E a linguagem do inconsciente é a do símbolo, que por um lado expressa verdades fundamentais sobre a origem de tudo, por outro repousa no mais absoluto mistério. Expressa apenas o que pode expressar, e este “apenas” ultrapassa nossas capacidades de esgotá-lo. Os símbolos são o tecido expressivo dos mitos e dos sonhos. Ambos radicam da mesma região. E há sonhos que falam para o mundo – são aqueles que sentimos necessidade incontornável de contar, que nos tocaram de modo único, impressionante, e há mitos que, além do seu papel centralizador nas culturas em que se originaram, existem para que nossa própria vida possa recebê-los hoje, e com isso se engrandecer e aprofundar numa experiência de sentido. Aprender a linguagem dos símbolos é uma necessidade vital. Ou corremos o risco de pender para um lado apenas e com isso destruir as possibilidades criativas do encontro entre os opostos, fonte da nossa saúde.

Não há receitas fáceis. Não há uma fórmula que esgote as possibilidades que a Vida tem de transcender a si mesma. Estamos falando do objeto de estudo mais complexo que existe: a psique humana e por extensão, tudo o que ela reconhece e estranha. Então, é a partir do erro e do acerto, da totalidade das possibilidades universais, que se alcança conhecimento e experiência fundamental da realidade psíquica. O ato simples de abrir-se para o que o inconsciente tem a dizer, tentar compreender e estabelecer sua linguagem com alguma segurança, já nos porá em boas mãos. O inconsciente costuma ser benevolente com quem lhe abre os ouvidos.

Assim, buscando em nós mesmos e para além de nós aquilo que nos torna quem somos, criamos o próprio tempo que nos receberá. As coisas vão se alinhando, se organizando dentro e fora. Sincronizando. E só alcançamos isso quando visitamos criativamente as emoções.

Uma vez perguntaram a Michelangelo como ele fazia para esculpir cavalos tão expressivos. Michelangelo apenas disse: “basta retirar da pedra tudo o que não é cavalo”.

Não podemos criar nada que já não exista em potência, mas a própria potência da Criação é responsável por descobrir em nossa alma, tesouros que ultrapassam tudo o que imaginávamos existir.

Façamos isso. Vamos lá.

JD Lucas, mitólogo e escritor

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