Mitologia Afro-Brasileira no Instituto Pretos Novos

Em 2016 damos início ao curso de Mitologia Afro-Brasileira num lugar mais que apropriado para isso. Nossa casa, em encontros mensais, será o Instituto Pretos Novos, no centro do Rio de Janeiro.

exu

Era 1996, na região do porto do Rio de Janeiro, quando Merced e Petruccio, donos de uma casa construída no século XVIII, resolveram empreender uma reforma. Só não contavam que sob seus pés havia um verdadeiro sítio arqueológico.

Sob a estrutura havia um cemitério secular de negros que não resistiam à viagem da África e morriam antes de serem comercializados. Naquele lugar eram enterrados, sem um funeral ou qualquer placa lembrando seus nomes e origem. Foi o Cemitério dos Pretos Novos.

Junto aos entulhos, foram encontrados fragmentos de crânios e ossos humanos misturados a artefatos de cerâmica, vidro, metal e outros resquícios daquela época. O local foi transformado em sítio arqueológico e, mais tarde, em Centro Cultural, visando manter viva não só a história da cidade do Rio de Janeiro, como também a do Brasil e da África.

Atualmente o espaço, transformado em memoria, realiza cursos, palestras, oficinas, exposições centradas na presença do negro.

Agora realizaremos o Curso de Mitologia Afro-Brasileira no Instituto Pretos Novos e eu só posso expressar alegria por isso. O peso da História é enorme, especialmente sobre quem carrega na pele e na alma a opressão e a tortura que durante séculos vitimou etnias inteiras, indivíduos de repente apartados do lar, sem ter a quem recorrer. No entanto, foi na experiência dos seus deuses – e do que aprendeu com eles – que o negro conseguiu se salvar e manter a essência da sua cultura na força de impulsionar grandes revoluções. Se hoje temos o samba, o carnaval, a dança, a música de modo geral, todo uma herança negra que transforma o Brasil e o mundo, é graças à força que esses homens e mulheres trouxeram da África e fizeram brotar – a custa de muita dor – por aqui.

No curso, falaremos de cada um dos Orixás, a começar por Exu. Serão encontros mensais, com emissão de certificado a todos os participantes. As vagas são limitadas e as inscrições são gratuitas, devendo ser feitas diretamente com o Instituto. Nosso primeiro encontro será no dia 18 de Março, Sexta-Feira, às 14 horas. As inscrições podem ser feitas através do e mail anc@pretosnovos.com.br ou 2616 7089

Para quem está fora do Rio de Janeiro, ou não poderá estar presente nesse horário, estamos realizando o curso online, via vídeo conferência. Envie um email para jdlucas.contato@gmail.com ou ligue para 21 98393 1078.

Veja a ementa

EXU – O GUARDIÃO BATE À PORTA (18/mar)
Trataremos da ambígua figura de Exu. Demonizado pelos primeiros colonizadores europeus, tanto em África quanto no Brasil, Exu é um desafio à compreensão lógica. A figura do trapaceiro é um tema universal nas mitologias e está sempre associada aos trânsitos, as comunicações, conexões, ao que não se pode capturar. Tudo o que se movimenta é mobilizado por Exu. No tecido mitológico Iorubá, é uma divindade de primeira importância, sem o qual o trânsito entre o Orum e o Ayiê não pode ocorrer.

OXUM – O FEMININO ATEMPORAL
Deusa das águas doces, em grandes momentos de perigo, é sempre a responsável por restabelecer o equilíbrio, e o faz através das suas qualidades mais importantes: a sedução, a dança, a abnegação, a renúncia. Mesmo a mais vaidosa das Orixás, em momentos de grande crise, como demonstração de profundo afeto pelos deuses e pelos homens, é capaz de doar-se, e com isso, renovar o mundo.

OMULU – O CURADOR FERIDO
Silêncio, o grande rio está chegando. Omulu é o filho renegado de Nanã e adotado por Yemanjá, portador da saúde e da doença. Figura emblemática da mitologia africana e do imaginário brasileiro. Seu culto se estende de leste a oeste em África, e em toda parte é reverenciado como uma potência sem par. Se levado em consideração, respeitado, Obaluayê é o senhor da Terra, pai protetor que concede saúde. Mas quando desrespeitado, é Sapatá, dono da peste, capaz de arrasar populações inteiras.

OXUMARÊ – 7 CORES DO BRANCO
Oxumarê representa todos os fluxos cíclicos da natureza. Movimento e troca. Seja os movimentos de translação e rotação que o planeta realiza em torno do Sol, seja o aquecimento, vaporização, condensação e precipitação da chuva que irrigará os campos. É possível contemplar sua face quando a luz passa pelas gotas de chuva e se decompõe nas 7 cores do arco-íris.

OXÓSSI – O CAÇADOR E A FLORESTA
Quando a cidade de Ketu foi destruída no século XVIII, os seus habitantes, em grande parte devotos de Oxóssi, foram enviados forçadamente como escravos. Isso fez com que o culto ao Orixá em África, praticamente se extinguisse. No Brasil, no entanto, o culto tem força, e Oxóssi conta com um séquito significativo de filhos (devotos). Oxóssi é o herói cultural que estabelece na caça e na coleta do alimento as primeiras ações do homem civilizado. A Floresta, seu território de atuação, é ambígua: por um lado, guarda inúmeros perigos. Por outro, fornece tudo quanto se necessite para a manutenção da vida.

IYÁ MI – AS TERRÍVEIS MÃES DO PÁSSARO
São o feminino ancestral, muitas vezes sombrio, irascível. A energia dos mortos femininos é aglutinada de forma coletiva e representada por Iya Mi Oxorongá, chamada também de Iyá NIa, a grande mãe. As Iyá Mi são cultuadas pelas Sociedades Geledé, compostas exclusivamente por mulheres, e somente elas detêm e manipulam este perigoso poder. Nos festivais anuais em sua homenagem, na Nigéria, onde se louva o poder feminino ancestral, os homens se vestem de mulher e usam máscaras com características femininas, dançam para acalmar a ira das terríveis mães do pássaro.

ORI – CONSCIÊNCIA E REVOLUÇÃO
Embora dotados de características comuns, todos os indivíduos, em si, são únicos. Quando nasce, segundo a tradição Yorubá, a criança recebe, na primeira inspiração (Emí), o seu Ori, algo como uma identidade espiritual que a protegerá e guiará pelos rumos da vida. Ori é consciência de um caminho irrepetível, da vida como manifestação incontornável de si mesma. Ori é a cabeça de onde partem todas as grandes revoluções.

OXALÁ – O CRIADOR É CRIATURA
Os orixás fun fun, aqueles que caracteristicamente vestem branco, são ligados à ancestralidade, à tradição, à manutenção da herança e da genealogia. Oxalá, e seus múltiplos desdobramentos (Obatalá, Oxaguiã etc.) é Pai e Filho da humanidade e dos Orixás. Como Pai, é a primeira manifestação sensível do criador, que vai tomar o barro de Nanã para moldar os seres humanos. Como filho, percorre no Aiyê (mundo físico) por muitos caminhos e passa por grandes percalços, sempre acompanhado de seu ajudante, o guardião das encruzilhadas, Exu.

***

JD Lucas é mitólogo e escritor. Atualmente, ministra os cursos Introdução ao Mito e Mitologia Afro-Brasileira, além de uma exploração simbólica dos arcanos do Tarô de Marselha no curso Jornada para a Alma. É pesquisador membro da Joseph Campbell Foundation, e líder da RoundTable Mitológica Rio de Janeiro, célula do programa de círculos de discussão de Mitologia espalhados por todo o planeta.


			

3 comentários sobre “Mitologia Afro-Brasileira no Instituto Pretos Novos

  1. Olá Lucas Eu assisti a palestra Exu no ano passado no IPN e gostei muito, tenho acompanhado suas postagens e me interesso pelas demais palestras, infelizmente estou ensaiando as sextas. Por gentileza, continue enviando a divulgação dos seus cursos e materiais, espero, em uma próxima oportunidade, conseguir fazer o curso completo. abraço Débora Camposhttps://www.facebook.com/AFRO-Conexões-198842387127394/?fref=ts

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