Ponto de Partida para uma Era Planetária

A realidade é como um holograma. Cada micro-ponto contém a totalidade que se expressa em nível macro.
Um indivíduo é retrato de seu tempo, de seu lugar, das condições a que está submetido, dos seus humores afetivos e casuais. Isso significa que cada problema que encontramos ao nosso redor, está também em cada um de nós. O indivíduo é o sujeito da História e nunca, em qualquer momento dela, foi tabula rasa, destituído de herança. Mesmo na sopa de Oparin, organismos complexos dependeram de organismos unicelulares para se tornarem quem são, e portanto, já são produto de determinada origem.
De outro modo, nos sentimos pequenos diante dos desafios que a História nos imputa: como pode o sujeito simples, único, fazer frente aos grandes problemas atuais? Como pode o negro, o indígena, a mulher, o pobre, o homoafetivo, o imigrante, o vagabundo sem eira nem beira e o trabalhador bem intencionado fornecer ao mundo uma chave de mudança, que enseje realmente uma revolução no sentido de construir um lugar mais habitável para todos nós e para os que vierem depois de nós?
Pode parecer um lugar-comum o que vou dizer, e talvez realmente seja, o que não o destitui de todo do seu valor de verdade: todos nós somos responsáveis pelas desordens que apontamos. A conscientização disso, e da medida em que isso ocorre é o ponto específico de onde devemos partir para produzir qualquer revolução.
O segundo movimento é a ação diretiva, a mais arrojada e corajosa, a mais engajada e universal possível no tecido do real:
O pequeno e específico gesto que se transforma até produzir o grande efeito.
Carl Jung, interessado no problema do indivíduo frente a necessidade de se posicionar animicamente em relação às questões de seu tempo, registrou no parágrafo 118 do seu Tipos Psicológicos uma sugestão de caminho para a compreensão de si mesmo que considero muito importante e que copio logo abaixo, antes fazendo um esclarecimento sobre o que significa e em que redunda o movimento de procurar saber quem se é e o de agir sobre quem se é no mundo, com o ensejo de modificá-lo:
a. O VALOR INTROVERTIDO
O indivíduo conhecer e experimentar a si mesmo como único em suas especificidades.
b. O VALOR EXTROVERTIDO
O indivíduo se perceber como participante de um tecido complexo de individualidades que por sua vez expressam ideologias, modos de operação e sentimentos (valorações) diversos dos seus, e a partir da identificação das diferenças e semelhanças de si para com a sociedade dos indivíduos que o cercam, abrir-se para a modificação de si, e para a provocação da modificação do outro (função didática).
(…) um problema pessoal, no fundo, e portanto aparentemente subjetivo, ao tropeçar com acontecimentos exteriores, cuja psicologia contém os mesmos elementos do conflito, se agiganta e se transforma em questão geral que atinge a sociedade inteira. Com isto se atribui também ao problema pessoal uma dignidade que não possuía antes, pois na discordância consigo mesmo há sempre algo de depressivo e vergonhoso, sentindo-se a pessoa, tanto para fora como para dentro, na situação de um país desonrado pela guerra civil. Por isso se evita a confissão em público de um problema puramente pessoal, a menos que se padeça de uma sobrestima altamente temerária. Se for possível encontrar e reconhecer a conexão entre o problema pessoal e os grandes acontecimentos contemporâneos, haverá uma libertação da solidão puramente pessoal, adquirindo o problema subjetivo a amplitude de uma questão geral da nossa sociedade toda. A vantagem disso não é pequena quando se pensa na possibilidade de uma solução. Enquanto o problema pessoal só dispõe das parcas energias do interesse consciente pela própria pessoa, concorrem, agora, as forças instintivas da coletividade, somando-se aos interesses do eu e dando lugar a uma situação nova, garantia de novas possibilidades de solução. O que não poderia ser conseguido pela força pessoal da vontade ou da coragem, pode consegui-lo a força instintiva coletiva, possibilitando ao homem vencer obstáculos que antes não podia, com sua força pessoal.”
Continuo por minha conta:
As grandes correntes de pensamento político que se estruturaram no século XX, a saber, o Capitalismo e o Comunismo, são diametralmente opostas no que diz respeito a essas valorações, e por isso mesmo, em nível prático, se tornam tão parecidas: O Capitalismo é o culto do consumo mediado pela crença na individualidade como um valor absoluto. Mas para atingir essa individualidade, vende consumo padronizador, e portanto, massifica o indivíduo, fazendo-o crer que o está salvando em si, através da sua capacidade de consumir. O Comunismo, por sua vez, comporta-se como um culto do Homem sendo valor maior e abstrato; mas para isso remove sucessivamente as suas chances de encontrar respaldo para a individualização que o tornaria cada vez mais humano, a saber: o aprofundamento numa cultura aberta para recebê-lo em sua complexidade; o mecanismo através do qual realiza esse movimento são os conhecidos cerceamentos de liberdade, inflação do poder de alcance do Estado, aplanamento cultural etc. Pretende Oferecer ao Homem o básico para a sobrevivência e com isso garantir, portanto, a sua salvação.
Penso que o único problema real nisso tudo é: de que maneira estamos contribuindo para a criação de um mundo que contemple múltiplas realidades individuais, culturas diversas e ao mesmo tempo mantenha resguardado o indivíduo em sua pequena complexidade? Como toda grande questão aparentemente insolúvel, essa nos obriga a olhar para os fundamentos da nossa existência na tentativa de extrair de lá uma resposta capaz de reunir opostos tão discrepantes. E a raiz de quem somos é bastante verdadeira e palpável: está na Natureza, no meio ambiente, na biodiversidade, no ar que respiramos e que nos refresca, na água que nos sacia, no animal e na planta. Agora que sabemos que o maior problema que a Natureza tem somos nós, capazes de poluir, matar em larga escala, adulterar os produtos sinceros e biodiversos, nos resta deslocar algo do nosso interesse no auto-conhecimento abstrato, na ciência a qualquer custo, na religião do Deus que mora fora daqui, deslocar essa carga enorme de intencionalidades para repensar a forma como lidamos com a Vida, esse manancial de criaturas que se desconhecem.
Nenhuma religião é maior que a da natureza, posto que todo poder que conhecemos e que não conhecemos, precisa ocorrer e passar através dela para se manifestar em nós: ou não é milagroso que um copo d’água possa matar sua sede assim, tão de repente?
Nenhuma sistema político é mais pertinente que o sistema de pensar e agir em prol da biodiversidade. Ou queremos indivíduos padronizados, enfiados em carros enormes e poluentes, aproveitando seus ar condicionados enquanto o mundo do lado de fora agoniza de calor pelo efeito estufa?
Construir respostas e ações satisfatórias a essas perguntas é o verdadeiro desafio de nosso tempo.

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