Os opostos em nós, por Carl Jung

Carl Gustav Jung deu um passo adiante quando, no decorrer de décadas de trabalho clínico e auto-observação, entendeu que há pelo menos duas disposições típicas nos indivíduos: a introversão e a extroversão. O introvertido é aquele que tem maior tendência à abstração, o extrovertido é aquele que é atraído pela objetividade das coisas. Todas as guerras, das maiores às menores disputas individuais, têm sua raiz nesta condição da alma.

Os exemplos são enormes e significativos. Remeto o leitor interessado ao muito famoso, mas pouco lido Tipos Psicológicos (Vol 6 das Obras Completas), onde Jung faz uma imersão no passado da antiguidade clássica e primitiva até os dias atuais, analisando a problemática em nível pessoal e coletivo (com os primeiros teólogos da Igreja, os filósofos gregos, Nietzsche etc.).

Separei um pequeno e significativo trecho desse livro, que se encontra no parágrafo 118 e 133, sobre como poderíamos nós, simples indivíduos, encontrar nos problemas coletivos uma possibilidade de aprofundamento das nossas próprias questões pessoais, e com isso, ensejar uma revolução para além dos pares de opostos que nos compõem.

(…) um problema pessoal, no fundo, e portanto aparentemente subjetivo, ao tropeçar com acontecimentos exteriores, cuja psicologia contém os mesmos elementos do conflito, se agiganta e se transforma em questão geral que atinge a sociedade inteira. Com isto se atribui também ao problema pessoal uma dignidade que não possuía antes, pois na discordância consigo mesmo há sempre algo de depressivo e vergonhoso, sentindo-se a pessoa, tanto para fora como para dentro, na situação de um país desonrado pela guerra civil. Por isso se evita a confissão em público de um problema puramente pessoal, a menos que se padeça de uma sobrestima altamente temerária. Se for possível encontrar e reconhecer a conexão entre o problema pessoal e os grandes acontecimentos contemporâneos, haverá uma libertação da solidão puramente pessoal, adquirindo o problema subjetivo a amplitude de uma questão geral da nossa sociedade toda. A vantagem disso não é pequena quando se pensa na possibilidade de uma solução. Enquanto o problema pessoal só dispõe das parcas energias do interesse consciente pela própria pessoa, concorrem, agora, as forças instintivas da coletividade, somando-se aos interesses do eu e dando lugar a uma situação nova, garantia de novas possibilidades de solução. O que não poderia ser conseguido pela força pessoal da vontade ou da coragem, pode consegui-lo a força instintiva coletiva, possibilitando ao homem vencer obstáculos que antes não podia, com sua força pessoal.”

E, em seguida, no parágrafo 133

(…) para achar e seguir este caminho [transcendente], deve, antes, deter-se longo tempo entre os opostos em cuja direção se bifurcou o caminho original. O obstáculo represa o rio de sua vida. Sempre que ocorre um represamento da libido, os opostos, antes unidos no fluxo constante da vida, se dividem e se enfrentam como adversários, sedentos de batalha. Esgotam-se, então, numa luta prolongada cuja direção e desfecho são imprevisíveis; mas, da energia que perdem, constrói-se aquela terceira coisa que é o começo de um caminho novo.

(…) Não importa o obstáculo com que nos defrontamos – contanto que seja grande – a discordância entre nosso próprio intento e o objeto refratário se transforma, logo, em discordância em nós mesmos. Pois, enquanto luto para subordinar o objeto rebelde à minha vontade, todo o meu ser entra, aos poucos, em relação com ele, em virtude do grande investimento de libido que, por assim dizer, transfere uma parte de meu ser diretamente para o objeto. O resultado é uma identificação parcial de certas porções de minha personalidade com qualidades semelhantes do objeto. Logo que se opera esta identificação, o conflito fica transferido para minha própria psique. Esta introjeção do conflito com o objeto cria uma discordância dentro de mim, tornando-me impotente com relação ao objeto e liberando afetos, sempre sintomáticos de desarmonia interior. Os afetos, porém, provam que me percebo a mim mesmo e que estou, portanto, em condições – se não for cego – de prestar atenção em mim mesmo e de seguir em mim o jogo dos opostos.

Estamos aprofundando o estudo dos Tipos Psicológicos e das Funções  Psíquicas propostas por Jung no curso O Caminho do Alquimista, utilizando o Tarô de Marselha como ponto de partida para a construção e o aprimoramento de uma visão e experiência simbólica da vida. Você conhece os detalhes aqui: https://goo.gl/Jrx5Eo

Até mais!

 

Um comentário sobre “Os opostos em nós, por Carl Jung

  1. Estava a ler posts de comentários no Facebook e a pensar sobre essa valoração pessoal dos míseros problemas e a reação por faláceas nos comentários sobre problemas políticos (da conta de todos)… Se observados em uma perspectiva de que os mesmos são reflexos da conjuntura moral da sociedade atual, descarregamos grande peso das costas e conseguimos, como Jung propõe, utilizarmos da força da coletividade para resolver problemas que na verdade não são nossos e sim da contemporaneidade que nos aflige. Excluindo o ego do centro e dando uma colher de chá de sossego pra nós mesmos.

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