O Orgasmo e a Serpente

Topei esses dias com um artigo científico – ou que se pretendia científico, pelo menos – propondo justificativas para o orgasmo feminino. A argumentação era de que, já que a mulher pode engravidar mesmo sem atingir o orgasmo, o orgasmo serviria pra mantê-la paralisada e facilitar a inseminação. Várias outras hipóteses foram apresentadas, todas condicionadas à preservação da espécie. Os tais redatores do artigo só não mencionaram um motivo, que pra mim e pra maior parte das mulheres, imagino, seja o principal: a mulher goza porque precisa do prazer! Não deveria ser tão difícil admitir que o prazer, e sobretudo o prazer feminino, seja tão importante pra manutenção da vida.
Esse é o perigo de um exercício científico que se queira separado das condições de seu objeto de estudo: construir um saber mutilado, insuficiente já na base, partindo de hipóteses que excluem de imediato o dado sensorial humano.
Não há descoberta científica que não esteja vinculada às condições humanas, ou o que sabemos sobre elas. O ser humano é um animal que reconhece o seu psiquismo, e nada passa através dele sem por ele ser condicionado. Não há dado puro, livre das intenções do observador. Mesmo o Sol e a Lua dependem da Psique humana para serem percebidos (e portanto, para existir). Saber disso nos ajuda a lidar com idéias aleijadas, que à força de uma argumentação estéril, passam a falsa noção de imparcialidade e objetividade cientifica.
Talvez fosse a hora dos cientistas enclausurados – e de um monte de homens por aí – passar adiante da gozada esvaziante e aprender com as mulheres o que é ter um orgasmo. Daquele que vibra todos os átomos do corpo e em volta. Sobre isso, o tantra tem muito a nos ensinar, quando propõe a Kundalini, a serpente simbólica que mora em cada um de nós, e que sobe dos nossos órgãos sexuais à dimensão da revelação absoluta de deus e da deusa em nós. Em cada um de nós é possível provocar a revolução.

JD Lucas é mitólogo, pesquisador associado à Joseph Campbell Foundation, e líder da RoundTable Mitológica Rio de Janeiro, célula brasileira do programa de discussões sobre o Mito capitaneado pela JC Foundation em todo o mundo. Atualmente, ministra os cursos de Mitologia Afro-Brasileira, Introdução ao Mito e Jornada para a Alma.

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