A Separação dos Opostos

O mundo precisava ser decomposto, e os opostos tinham de ser separados para que fosse criado o espaço no qual o ego humano consciente pudesse existir. (….)

O jovem ego é forçado a se estabelecer como algo definido e, portanto, ele deve dizer: “Eu SOU isto e NÃO sou aquilo”. Dizer “não” é uma característica crucial do desenvolvimento inicial do ego. Mas o resultado dessa atitude inicial é que uma sombra é criada. Tudo o que declaro que NÃO sou vai para a sombra e, cedo ou tarde, se o desenvolvimento psíquico deve acontecer, essa sombra separada deverá ser reencontrada como uma realidade interna; então, deveremos nos confrontar com o problema dos opostos que antes fora colocado de lado.

Eu diria que o par de opostos mais crucial e mais aterrador é o do bem e do mal. A própria sobrevivência do ego depende de como ele se relaciona com esse assunto. Para que possa sobreviver, é absolutamente essencial que o ego sinta a si mesmo mais como bom do que como mau. Deve haver um peso maior do lado do bem na comparação, do que no lado do mal. E isso, é claro, explica a criação da sombra, pois o jovem ego pode suportar poucas experiências da sua própria maldade sem sucumbir a uma total desmoralização. Isso também é responsável por um outro fenômeno universal – o processo de alocar o mal. O mal deve ser alocado, ele deve ser fixado e estabelecido como ocupando um lugar específico. Quando algo mau acontece, a culpa ou responsabilidade deve ser estabelecida sempre que possível. É extremamente perigoso ter o mal flutuando livremente. Alguém deve, pessoalmente, carregar o fardo do mal.

Á medida que o ego amadurece, a situação muda gradualmente e o indivíduo torna-se capaz de assumir a tarefa de ser portador do mal. Então, não é tão importante alocar o mal em algum outro lugar. Quando um indivíduo torna-se capaz de reconhecer o próprio mal, ele carrega em si os opostos, contribuindo assim para a criação da “coniunctio”. (…)

Uma vez que você comece a pensar a respeito e assim que você se familiarize com o fenômeno dos opostos, você o verá por todo lado. É o drama básico que ocorre na psique coletiva. Toda guerra, toda competição entre grupos, toda disputa entre facções políticas, qualquer jogo, é expressão da energia da “coniunctio”. Sempre que somos tomados por uma identificação por um dos lados dos opostos beligerantes, perdemos, nesse instante pelo menos, a possibilidade de sermos um portador dos opostos. Ao invés disso nos tornamos uma das pedras moedeiras de Deus que tritura o nosso destino. Nessas horas, ainda colocamos o inimigo fora de nós e, assim fazendo, somos apenas uma partícula.

Jung expõe a mesma ideia em palavras diferentes:

“Se a consciência subjetiva prefere as ideias e opiniões da consciência coletiva e se identifica com elas, então os conteúdos do inconsciente coletivo são reprimidos… E quanto mais carregada estiver a consciência coletiva, mais o ego perde a importância prática. É como se fosse absorvido pelas opiniões e tendências da consciência coletiva e o resultado disso é o homem da massa, a vítima sempre pronta de algum “ismo” deplorável. O ego mantém a sua integridade apenas se ele não se identificar com um dos opostos, e se compreender como manter o equilíbrio entre eles. Isso é possível se ele se mantiver consciente de ambos ao mesmo tempo.”
(The Structure and Dynamics of the Psyche, CW 8, 425)

(O Mistério da Coniunctio, Edward F. Edinger)

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