A TÁBUA DE ESMERALDA – Hermes Trismegisto

A TÁBUA DE ESMERALDA
Uma nova tradução do texto mais celebrado da Magia Ocidental
Apesar de sua brevidade, a ‘Tábua de Esmeralda’, ou ‘Tabla Smaragdina’ é o texto-chave do Hermetismo, de longa data reverenciado como a síntese de todo o conhecimento Hermético. Por séculos os alquimistas descobriram neste documento um poder talismânico, algumas vezes o pintando nas paredes de seus laboratórios ou inserindo-o em seus escritos. Até mesmo os iniciantes serão capazes de reconhecer alguns dos seus axiomas, principalmente o ‘como acima, assim abaixo’. Apesar do respeito com que é encarado, muitos, senão a maior parte dos elementos deste texto são desconhecidos, incluindo as razões de seu misterioso nome. Alguns imaginam que este queria implicar que este texto originalmente estava gravado numa esmeralda (embora não se descreva a existência de nenhuma esmeralda grande o suficiente para contê-lo). Outros notam que o termo ‘esmeralda’ freqüentemente era aplicado nos tempos antigos e medievais para outros materiais, como pedras semipreciosas e até mesmo o vidro. Antoine Faivre, de outro lado, diz que a esmeralda, como o mercúrio, tradicionalmente era atribuída a Hermes.Também ninguém sabe quando este trabalho foi escrito. Algumas autoridades o consideram como sendo o mais antigo dos textos herméticos, muito mais velho do que o Corpus Hermeticum, atualmente datado dos primeiros séculos da Era Cristã. Mas a sua história pública é consideravelmente mais curta. Começou a circular no Ocidente na Idade Média, quando foi traduzido para o Latim, presumivelmente a partir do Árabe, e foi colocado como apêndice em vários trabalhos alquímicos, incluindo a edição do Secretum Secretorum (Segredo dos Segredos) de Roger Bacon, escrito por Pseudo Aristóteles.
Durante séculos nenhuma versão mais antiga era conhecida e muitos simplesmente pensaram que fosse o trabalho de um alquimista medieval. Mas no século 20, estudiosos descobriram versões em Árabe do texto, que jogam a sua data, com certeza, para pelo menos o século nono depois de Cristo. Estes textos dizem que a Tabua foi descoberta por um alquimista chamado Balinas o Sábio, que frequentemente é associado com Apolonio de Tyana, um mago semi-mítico do terceiro século depois de Cristo. Muitos acreditam que as Tábuas foram originalmente escritas em Ciríaco ou Grego, embora nenhuma versão nessas línguas tenha sido encontrada. Talvez a sua origem volte ainda mais para trás no tempo, para alguma linguagem egípcia ou outra, cuja própria existência tenha sido esquecida. Alguns estudiosos sugerem que as origens das Tábuas pode ser traçada à Ásia Central e Joseph Needham vai para o oriente nesta busca pelas suas origens. Notando a sua similitude com as idéias alquímicas chinesas, ele inclui em seu monumental Science and Civilization in China (Ciência e Civilização na China) uma tradução hipotética que ele mesmo fez, apenas para ver como soaria: ‘O pai disto ( o elixir, tan) é o sol (Yang), sua mãe a lua (Yin)…’ Needham está em boa companhia, porque os tradutores da Tábua para o Inglês remonta, pelo menos quinze séculos, e incluíram personalidades tais como Sir Isaac Newton, H.P. Blavatsky e Idries Shah. Ainda assim, nenhuma das versões atualmente em circulação, parece-me, é totalmente correta; existem pequenos erros na tradução de tempos verbais e alguns termos obscuros. Em acréscimo, muitos tradutores, especialmente aqueles com pretensões a um conhecimento esotérico tem mais ou menos deliberadamente ‘interpretado’ as Tábuas de acordo com suas próprias formulações. Assim decidi tentar a minha própria versão do Latim, tentando omitir as minhas opiniões tanto quanto possível (embora a tradução inevitavelmente exija algumas decisões nesta direção). Para aqueles que desejam comparar a versão Árabe, eu a inclui neste texto, junto com um parágrafo de material preliminar, de Robert A. Powell, traduzindo do livro Meditações sobre o Tarot, de Valentin Tomberg.

TEXTO EM LATIM

1. Verum, sine mendacio, certum, et verissimum:
2. Quod est inferius est sicut qod est superios, et quod est superius est sicut quod est
inferius, ad perpetranda miracula rei unius.
3. Et sicut res omnes fuerunt ab uno, mediatone unius, sic omnes res natae ab hac una
re, adaptatione
4. Pater eius est sol; mater eius est luna. Portavit illud ventus in ventre suo; nutrix eius
terra est.
5. Pater omnis telesmi totius mundi est hic.
6. Virtus eius integra est, si versa fuerit in terram.
7. Separabis terram ab igne, subtile ab spisso, suaviter, magno cum ingenio.
8. Ascendit a terra in coelum, iterumque descendit in terram, et recipit vim superiorum
et inferiorum. Sic habebis gloriam totius mundi. Ideo fugiet a te omnis obscuritas.
9. Haec est totius fortitudinis fortitudo fortis, quia vincent omnem rem subtilem,
omnemque solidam penetrabit.
10. Sic mundus creatus est.
11. Hic enrunt adaptationes mirabiles, quarum modus est hic.
12. Itaque vocatus sum Hermes Trimegistus, habens tres partes philosophiae totius
mundi.
13. Completum est quod dixi de operatione solis.

UMA NOVA TRADUÇÃO

1. É verdade, sem engano, certo e muito verdadeiro.
2. Aquilo que está abaixo é como aquilo que está acima, e aquilo que está acima é como
aquilo que está baixo, para realizar as maravilhas de uma coisa.
3. E assim como todas as coisas surgiram do um, pelo desígnio do uno, assim todas as
coisas nasceram desta única coisa, adaptação.
4. Seu pai é o sol; sua mãe é a lua. O vento carregou-o em seu ventre; sua nutriz é a
terra.
5. Este é o pai de todas as consagrações de todo o mundo.
6. Seu poder está intacto, se estiver direcionado para a terra.
7. Você irá separar terra do fogo, o sutil do denso, docemente, com grande
engenhosidade.
8. Ela ascende da terra ao céu, desce novamente em direção à terra e recebe a força das
coisas acima e abaixo. Assim você terá a glória do mundo inteiro. Daqui para a frente
toda escuridão fugirá de você.
9. Essa é a força forte de todas as forças, porque irá conquistar tudo que é sutil e
penetrar tudo que seja sólido.
10. Assim foi criado o mundo.
11. O restante será maravilhosa adaptação, da qual este é o método.
12. E assim fui chamado de Hermes Triplamente Grande, possuindo as três partes da
filosofia do mundo inteiro.
13. O que eu falei sobre o trabalho do sol está completo.

NOTAS

Item 3: meditatione aqui talvez seja melhor traduzida como ‘plano’ ou ‘intenção’, algumas vezes é traduzida como ‘contemplação’, um sentido mais raro desta palavra em Latim. Algumas versões apresentam mediatione, ou ‘mediação’. Adaptatione: algumas variantes apresentam adoptione, ‘adoção’.
Item 5: Telesmi. Uma palavra obscura, de origem Grega, que não aparece nos léxicos latinos. O léxico Grego de Liddell & Scott traduz o grego telesmos (telesmos), como ‘cerimônia de consagração’ e assim eu a considerei aqui como uma ‘consagração’. Ela poderia referir-se a um processo através do qual o inferior e o superior abençoam ou ‘consagram-se’ mutuamente através de sua interação. Uma outra interpretação possível
seria ‘compleição’ ou ‘perfeição’. Esta palavra algumas vezes também é traduzida como ‘talismã’, presumivelmente porque, conforme o Webster Ninth Collegiate Dictionary, a palavra ‘talismã vem do Grego medieval telesma (telesma). Mas se este fosse o caso aqui, a forma seria telesmatos (telesmatos). Uma outra maneira de lê-la seria ‘maravilhas’, mas em Grego, teríamos a palavra qaumata (thaumata), uma palavra
completamente diferente. Também não está relacionada com a palavra qelema (Thelema) ou ‘vontade’, uma outra palavra completamente diferente.
Item 9: ‘Uma ‘força forte de todas as forças’ parece estranho, mas o equivalente latino também soa estranho. Suspeito que o seu propósito seja reforçar a idéia de um ternário, um dos temas maiores da Tábua, conforme o
Item 12: ‘possuindo as três partes da filosofia do mundo inteiro’, etc.

UMA VERSÃO DO ÁRABE
Aqui está aquilo que o sacerdote Sagitus de Nabulus ditou no que se refere à entrada de Balinas na câmara oculta (as seguintes palavras de sabedoria foram encontradas no final do livro de Balinas o Sábio). Depois de minha entrada na câmara, onde o talismã estava montado, encontrei um velho sentado num trono dourado, que estava segurando uma tábua de esmeralda numa das mãos. E contemplai, o que se segue, em Siríaco, a linguagem primordial – estava nela inscrito:
1. Aqui (está) uma verdadeira explicação, com relação à qual não pode haver dúvidas.
2. Ela atesta: O superior (vem) do inferior e o inferior vem do superior – o trabalho do milagre do Uno.
3. E todas as coisas foram (formadas) desta substância primal através de um único ato. Que maravilhoso é este trabalho! É o principal (princípio) do mundo e seu mantenedor.
4. Seu pai é o sol e sua mãe a lua; o vento o carregou em seu corpo e a terra o nutriu.
5. (É) o pai dos talismãs e o protetor dos milagres,
6. Cujos poderes são perfeitos e cujas luzes são confirmadas (?),
7. Um fogo que se torna terra. Separe a terra do fogo e assim você irá obter o sutil como mais inerente do que o grosseiro com cuidado e sagacidade.
8. Ele eleva-se da terra ao céu para atrair as luzes do firmamento para si, e desce (novamente) para a terra; assim dentro dele estão as forças do acima e do abaixo, devido à luz das luzes ( que estão) dentro dele, assim a escuridão foge defronte dele.
9. (Ë) a força das forças, que domina toda a coisa sutil e penetra em tudo que é grosseiro.
10. A estrutura do mundo pequeno (microcosmo) está de acordo com a estrutura do grande mundo (macrocosmo).
11. E, da mesma maneira acontece aquilo que é possível de ser conhecido.
12. E a isso aspirou Hermes, que foi três vezes agraciado com sabedoria.
13. E este é o seu último livro, que ele ocultou na câmara.

Tradução: NoKhooja

JD Lucas é mitólogo, pesquisador associado à Joseph Campbell Foundation, e líder da RoundTable Mitológica Rio de Janeiro, célula brasileira do programa de discussões sobre o Mito capitaneado pela JC Foundation em todo o mundo. Atualmente, ministra os cursos de Mitologia Afro-Brasileira, Introdução ao Mito e Jornada para a Alma.

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2 comentários sobre “A TÁBUA DE ESMERALDA – Hermes Trismegisto

  1. Desde muito tempo que esbarro com este texto de Hermes. Falar qualquer coisa diante do que foi dito seria falar a mesma coisa com outras palavras. No entanto, já escutei algumas colocações interessantes como: o que está acima é análogo e não igual ao que está abaixo. Não podemos igualar o perecível ao que é imperecível. Nesse caso, o melhor seria fazer silêncio diante do mistério e guardar as recomendações de Flamel: “Eu te revelo que a nossa arte (há uma arte real,a arte da salvação, a arte da liberação do ouro, a arte da transformação do homem) só é revelada pelo esforço e é cheia de mistérios e tu, pobre idiota, és tão crédulo que chegas a pensar que nós ensinaríamos aberta e claramente o mais importante e maior de todos os segredos, se tomares ao pé da letra nossas palavras” e de outro: ” há uma ideia de uma hierarquia, não só no mundo visível como no mundo invisível, e ninguém pode fugir ao sentimento hierárquico, porque ele existe em todas as coisas. Há coisas que servem de suporte a outras. Há uma base, uma fundação, há toda uma estrutura gradualística em que uma coisa está ligada a outra.”

    Muita Paz.

  2. Bom,depois do bózon de Higgins, fica mais fácil entender a permeação pela massa negra ou força da Criação Divina. Como está foi gerada desde o big bang, o começo de tudo, tudo o que está acima, o universo todo tem a mesma substância geradora de que esta abaixo, na é abaixo da crosta. Parece relativamente encantador o fato de cada substância da tabela periódica ser a anterior modificada com um pequeno acréscimo eletromagnético, visto do ponto de vista quântico. É aquela estória do nada se cria, tudo se transforma

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