Considerações sobre a Sombra Coletiva

(…) O ser humano conquista não só a natureza como também o espírito sem dar-se conta do que está fazendo. Para a mente iluminada, parece tratar-se da correção de um equívoco o fato de reconhecer que aquilo que antes era considerado como sendo espíritos, na realidade é o espírito humano, isto é, seu próprio espírito. Todo o sobre-humano, tanto no bem como no mal, que os antigos afirmavam acerca dos daemonia a modo de um exagero, é reduzido à sua medida “sensata” e assim tudo parece estar na mais perfeita ordem. Será, no entanto, que as convicções unânimes do passado eram verdadeiramente apenas exageros? Se não o fossem, a integração do espírito humano nada mais significaria do que uma demonização do mesmo, na medida em que forças espirituais sobre-humanas, outrora atadas na natureza, são integradas no ser humano, conferindo-lhe um poder o qual transpõe os limites do ser humano, do modo mais perigoso, para o indeterminado. Devo formular a seguinte pergunta ao racionalista esclarecido: será que a sua redução sensata conduziu a um domínio benéfico da matéria e do espírito? Orgulhosamente ele apontará os progressos da física e da medicina, a libertação do espírito da estupidez medieval e, como cristão bem intencionado, a libertação do medo dos demônios. Continuamos porém a perguntar: a que levaram as outras conquistas culturais? A resposta terrível está diante de nossos olhos: não nos libertamos de medo algum, um pesadelo sinistro pesa sobre o mundo. A razão até agora fracassou lamentavelmente e justamente aquilo que todos querem evitar acontece numa progressão horripilante. O homem conquistou coisas utilitariamente fabulosas, mas em compensação escancarou o abismo no mundo e como conseguirá parar, se ainda for possível? Depois da última guerra mundial ainda se esperava que a razão predominasse; a espera continua ainda, mas já estamos fascinados pelas possibilidades de fissão do urânio e prometemos a nós mesmos uma era de ouro — a maior garantia de a abominação destruidora crescer ilimitadamente. E quem é o causador de tudo isso? É o espírito humano considerado inofensivo, engenhoso, inventivo e sensato, que infelizmente não tem consciência do demonismo inerente a ele. Sim, este faz tudo para não se defrontar com o próprio rosto, e todos nós o ajudamos na medida do possível. Deus nos livre da psicologia, pois tais digressões poder-nos-iam levar ao autoconhecimento! Preferimos as guerras a isso, pois elas são sempre a culpa do outro; ninguém vê que o mundo inteiro está possesso, pois fazemos aquilo que mais tememos e aquilo do que fugimos. Para falar com franqueza, parece-me que os tempos passados não exageraram, que o espírito não se livrou de seu demonismo e que os homens, devido ao desenvolvimento técnico-científico, ficaram entregues ao perigo crescente da possessão. O arquétipo do espírito é certamente caracterizado como sendo capaz de efeitos tão bons quanto maus, mas depende da decisão livre, isto é, consciente da criatura humana, que o bem não se deteriore em algo satânico. Seu pior pecado é a inconsciência, mas a ela se entregam com a maior devoção até mesmo aqueles que deveriam ser mestres e modelos para os outros. Quando cessaremos de pressupor que o homem é simplesmente bárbaro, procuraremos seriamente os meios e caminhos para exorcizá-lo e arrancá-lo de sua possessão e inconsciência, transformando esta tarefa no mais importante feito da cultura? Não podemos entender afinal que todas as modificações e melhorias externas nada alteram no que concerne à natureza humana, tudo depende em última análise da forma pela qual o ser humano manipula a ciência e a técnica, tornando-se responsável por seus efeitos? Com certeza, o cristianismo abriu-nos o caminho, porém permaneceu na superfície, não tendo penetrado suficientemente fundo, como os fatos comprovam.

Que desespero será necessário ainda até que se abram os olhos dos líderes responsáveis pelo destino da humanidade, a fim de que pelo menos eles mesmos possam resistir à tentação?

Carl Gustav Jung, em Arquétipos do Inconsciente Coletivo, pág. 98

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