A Nudez Punitiva

Câmara Cascudo anota em História dos Nossos Gestos, página 40 (Ed. Global)

“Meu primo Simplício Cascudo (1882-1943), criado por meu Pai, seu tio materno, viveu em nossa companhia até 1913. Magro, inteligente, agitado, sorriso raro, pertenceu às associações da classe em Natal, sempre na diretoria. Faleceu solteirão, Fiscal da Prefeitura. Jamais abandonara os preceitos do Sertão, secura, rispidez, sinceridade, decoro, circunspecção, dignidade. Em 1908, estávamos veraneando num imenso casarão no meio de um terreno sem fim na Av. Deodoro, cheio de árvores e silêncio. Ficava tão distante do centro da cidade, então no bairro da Ribeira, que meu Pai e Simplício voltavam a cavalo, partindo da Rua do Comércio, hoje Rua Chile. Simplício, às vezes, regressava mais tarde. Numa noite deparou um ladrão interessado no exame de uns perus. Com o revólver apontado, obrigou o larápio a despir-se, abandonar toda a roupa, e ir-se embora nu em pelo. Provocou gargalhadas felizes aos amigos e muito tempo o episódio foi comentário divertido e ruidoso. Simplício faleceu sem saber que a nudez constrangida fora penalidade imposta aos violadores de quintas, granjas, almuinhas, pomares, hortas, no Portugal-Velho dos séculos XIII e XIV. Um foral de Tomar, datado de 1174, mandava que o gatuno assaltante peitasse, pagasse multa e deixasse o que trouxer vestido. Encontrei o registro no Elucidário de Viterbo. Sem saber que a lei existira, 734 anos depois, meu primo aplicou-a na cidade de Natal. A originalidade de 1908 datava da segunda metade do século XIII. Em que recôndito da memória inconsciente ocultou-se essa insólita punição medieval, ressuscitada e flagrante ao findar a primeira década do século XX numa cidade brasileira e tropical? Por que não ocorreu solução diversa, incluída na normalidade dos castigos habituais? Ao fazer-se desnudar o assaltante do galinheiro, meu primo tivera uma ideia nova ou a imagem vivia em potencial na sua lembrança, nas células portuguesas da família? O Homem transplanta vísceras, pisa os granitos lunares, liberta a força atômica, mas não atina com os segredos múltiplos da Reminiscência, o Mundo que vive em nós, obscuro e palpitante.”

Um comentário sobre “A Nudez Punitiva

  1. Pingback: A Nudez Punitiva | Canto para nós-outros .

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s