Linguagem e Mito

(…) Este sair da surda plenitude da existência para entrar em um mundo de configurações claras e verbalmente apreensíveis é representado pelo mito, em seu próprio âmbito e em sua própria linguagem imaginativa, pelo contraste entre o caos e a criação. Aqui, novamente, a palavra constitui a mediação, mais uma vez é o discurso que leva a cabo a passagem dessa informe base primeira para a forma do Ser, para sua articulação interior. Assim, a história assírio-babilônica da Criação descreve o caos como o estado em que o céu, no alto, ainda “não tinha nome”, e em que na terra, cá embaixo, não se conhecia ainda nome algum de coisa. Também no Egito o tempo anterior à Criação é chamado o tempo em que não existia nenhum deus, e no qual ainda não se conhecia nenhum nome para as coisas (81).

Desta indeterminação brota a primeira determinação originária, quando o deus criador pronuncia o seu próprio nome e, em virtude do poder que mora nesta palavra, chama a si mesmo à vida. A ideia de que este deus é sua própria causa, a autêntica causa sui, expressa-se miticamente no fato de que ele, em virtude de seu nome, suscita a si mesmo. Antes dele, diz a narrativa de sua origem, não havia deus algum, nem existia outro deus junto dele; “não houve para ele nenhuma mãe que lhe desse nome, nem tampouco um pai que o houvesse pronunciado, ao dizer: Eu o engendrei” (82).

Em o Livro dos Mortos, o deus do sol, Rá, é consignado como seu próprio criador, por haver dado a si mesmo seu nome, ou seja, suas essencialidades e poderes (83). E deste poder originário do discurso, inerente ao demiurgo, surge tudo quanto possui existência determinada e ser determinado; quando ele fala, isto significa o nascimento dos deuses e dos homens (84).

Com outro torneio e novo aprofundamento de significado, o mesmo motivo aparece no relato bíblico da Gênese. Também aqui é a palavra de Deus que separa a luz das trevas, que suscita de seu imo o céu e a terra. Os nomes das criaturas terrenas já não são, porém, conferidas pelo próprio Criador, mas por mediação do homem. Depois de haver Deus criado todos os animais do campo e todas as aves do ar, Ele as conduz ante o homem, para ver como este as nomeará, “pois, tal como Adão denominasse cada criatura vivente, assim devia ser seu nome” (Gênesis, 2, 19). Por meio deste ato denominativo, o homem toma posse física e intelectualmente do mundo, submete-o a seu conhecimento e domínio. Assim, neste traço particular, torna a patentear-se o caráter fundamental e o alcance espiritual do monoteísmo puro, expressos nas palavras de Goethe, segundo as quais a crença em um só Deus atua sempre de maneira enaltecedora sobre os espíritos, pois reporta o homem à sua própria unidade interior. Tal unidade, não obstante, só pode ser descoberta quando, em virtude da linguagem e do mito, se apresenta exteriormente nas formações concretas, quando é cunhada em um mundo de configurações objetivas, na qual se introduz e do qual pode ser recuperado paulatinamente mediante o processo da reflexão progressiva.

Linguagem e Mito, Ernst Cassirer (páginas 98 e 99), Editora Perspectiva

81. A. Moret, Le Rituel du culte divine jornalier en Egypte,  Paris, 1909, p.  129.

82. De  um papiro  de Leyden;   cf.  A.  Moret,  Mystires Egyptiens p.  120 e ss.

83. Livro  dos Mortos   (ed.  Naville),   17,   6;   cf.   Erman,  Die ägyp tische  Religion,   tomo 2,   Berlim,   1909,  ?.  34.

84. Comparar esta passagem com os exemplos aduzidos por Moret, no  capítulo “Le Mystère du Verbe Créateur”, de seus Mystères Egyptiens,  pp.  103  e ss.;  v. também Lepsius,  Älteste Texte des  Totenbuches, ?. 29; Reitzenstein, em seu Zwei reltgionsgeschichtiliche Fragen  (Estranburgo, 1901, esp. pp. 80 e ss.), expôs de modo amplo como se relaciona com  as  ideias  e   conceitos   fundamentais  da filosofia  grega  esta  noção egípcia do poder criador da palavra e que significado teve essa conexão para o desenvolvimento da doutrina cristã do Logos.

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