Cego no Labirinto

Em 2005 eu vivia uma imersão no território do mito. Era puro canal de influxos atemporais. Saiu-me este conto que dediquei a Jorge Luís Borges:

Cego no Labirinto

Estive por tanto tempo no Labirinto que não posso precisar por que razão ou determinação me dei a vagar por aqueles corredores, salas e antecâmaras vazias. Recordo — tão vagamente como um sonho de séculos — o sofrimento e a solidão com que me vi atado à rocha. Por mil vezes gritei aos deuses pela libertação, em todas fui ignorado. Aos poucos porém, fui-me adaptando àquela realidade geométrica e imprecisa, perdendo-me — quem não está perdido? — mas tentando crer que não.

Minhas primeiras companhias foram os ratos, os insetos, alguns pássaros menores e, por fim, os urubus. Esses últimos espreitando de longe, circulando-me em vôo lento, pesado e constante, talvez intuindo meu destino, aguardando silenciosos para descerem e bicarem-me a carne. Os outros me serviam de alimento e a sede quem me saciava era a chuva.

Tentei sem sucesso reproduzir o fogo, para descobrir mais tarde não precisar dele — os alimentos já me desciam bem crus, e das noites muito frias me protegi elaborando cobertores e vestimentas advindas da pele dos animais.

Não lembro quando comecei a marcar paredes, prometendo não trair a inteligência falseando por descaminhos repetidos.

Dormir era uma tarefa para a qual me resignava, já que em sonho continuava a percorrer os mesmos e outros corredores lúgubres e emaranhados. Sonhava com o Labirinto.

Esfolei mãos e pés em tentativas de escalar as paredes de pedra ou desenvolver instrumentos que me capacitassem para tal. Em todas elas minha sorte foi a mais miserável.

Com o tempo — dias, meses, anos — quase nunca dei a encontrar as setas rupestres e depreendi — não sem desespero — a enormidade do Labirinto.

Falei sozinho, normalmente discorrendo sobre as formas rochosas que me rodeavam; as pedras, sobrepostas umas às outras em cortes tão precisos, não pareciam ter sido tocadas pela mão humana. Eram um alfabeto hediondo que eu lia sem conhecimento prévio.

Uma noite disse a mim: Infinito é o Labirinto, ou muito maior do que se pode conceber. Os caminhos o alongam e o encerram; o Labirinto é um ser vivo. Em seguida me calei para sempre.

Certa feita, abri os olhos e foi como se continuassem fechados. De fato, estava cego. Ou estive, pelo menos. Chorei minha desgraça, conquanto, uma ultima vez…

A grande duvida é se estive mesmo cego ou sonhava com a escuridão. Porque em alguma parte do dia ou da noite voltava a percorrer o Labirinto, caçando e enxergando como se nada.

Sonho ou realidade, vaguei indefinidamente às apalpadelas ou aos passos firmes (imagino quantas vezes estive tão próximo da saída, isolado talvez por uma ou duas paredes de pedra, mas que, por uma escolha desavisada — que lógica empregar num lugar como esse? — fui ter em outro milhão de corredores sem fim).

Se houver os que lêem este relato improvável, deixo o seguinte testemunho: o Labirinto não é intransponível e pode ser vencido.

Enxergava desta vez e, sonho ou realidade, penetrei por um estreito e longuíssimo corredor de paredes muito altas. A empresa me custou semanas. Parecia-me inédita aquela parte do Labirinto, mas, e no entanto, estive em passagens tão inesperadas que no fim foram dar em grossas camadas de pedra em corredores sem saída. Contive a esperança, sobreveio a sorte.

Devo representar um grande mal aos que me encerraram no lugar que me devorou a maior parcela da existência. O fato é este: ao atravessar a pequena porta de madeira, dei com a visão magnífica. Não foi sem um sorriso resignado que encarei a paisagem adiante. O Labirinto figura no topo da montanha mais alta de uma cordilheira de montanhas colossais, donde sequer divisa-se registo de fogo ou civilização. Mesmo até o longínquo horizonte só se vê a vegetação densa, um e outro vale titânico e aglomerados de nuvens marmóreas.

Se, por uma hipótese tão improvável quanto interessante me houvessem levado àquele lugar, por outra perspectiva, pode-se pensar numa remota e intrigante possibilidade de, por vontade própria — uma inusitada pesquisa talvez, autopunição — ter-me enfurnado por livre vontade para vagar à sorte e só então, esquecido dos anos, tentar buscar a saída. Talvez esse relato já estivesse preconizado.

De qualquer forma, em decorrência dos anos, não poderia empreender contra as montanhas para buscar um povoado que não sei qual é. Exauridas minhas forças, até mesmo os urubus começam a sobrevoar-me mais de perto, antegozando meu fim.

Depois que encerrar estes rabiscos — que sequer sei — se fazem sentido, voltar-me-ei para o Labirinto novamente e empreenderei nova viagem, percorrerei novos e mesmos caminhos, isento de esperança, para abraçar e me fundir ao meu inexpugnável destino.

***

Ao cometer essa postagem, digitando o título no google, topei com esta matéria sobre uma pequisa em Harvard com um cego que atravessou um labirinto utilizando uma espécie de conhecimento inconsciente. Leia.

*

JD Lucas é mitólogo, pesquisador associado à Joseph Campbell Foundation, e líder da RoundTable Mitológica Rio de Janeiro, célula brasileira do programa de discussões sobre o Mito capitaneado pela JC Foundation em todo o mundo. Atualmente, ministra os cursos de Mitologia Afro-Brasileira, Introdução ao Mito e Jornada para a Alma.

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