O Homem Primitivo Ainda Habita em Nós

O homem primitivo ainda habita em nós. Toda a história da ciência, toda parafernália tecnológica, não fizeram mais que enfiar-nos goela abaixo que somos seres civilizados. Em certa medida sim, desenvolvemos costumes e vícios que balizam nosso comportamento em pilares científicos; Aprendemos a poluir mananciais, a destruir florestas, macular a infância e perverter tradições que não são nossas, sempre que se nos afigurou necessário para o progresso. Mas basta um lugar no breu, uma situação inesperada e perigosa, para nos devolver instintos primordiais: a agressividade que não se conhecia, o medo da potência do escuro, sonhos subterrâneos…

No decorrer do dia, poucas vezes nos damos conta de como a realidade pode ser prodigiosa, cheia de funcionamentos mágicos e intervenções do incognoscível. Pode ser um pensamento mínimo, uma intuição apenas, de que algo está funcionando porque tem que funcionar. Um pouco de atenção revela pequenos instantes onde coisas parecem se conectar. Sincronizamos com a nossa mitologia pessoal.

Inventamos deuses que nos inventam, atribuímos-lhes sentimentos e capacidades que são nossas, mas que necessitam de figurar fora de nós para que possamos reconhecê-las, reintegrá-las.

Toda vez que chove muito, quando chega a cair relâmpago, sinto um despudor irrepreensível de invocar o Deus Odin (como se fosse o próprio Thor!). Gritar por ele quando estoura o raio me faz sentir vivo, todo o meu corpo invadido por uma energia que não posso nomear, que me preenche de alegria e coragem; gritar para Odin, o guardião do Universo, Odin amigo dos lobos, irmão dos corvos, Odin criador das runas, da escrita, da magia, das ciências,  por Xangô, por Zeus, pelo relâmpago inefável! Isso me põe em contato direto com o arcaico que me habita. Enquanto estouram relâmpagos do céu e as velhas correm para cobrir os espelhos eu lanço no espaço minha saudação à Energia, e ouço de volta um ribombo de trovão que é um brado!

Se me falta a oportunidade de gritar ao relâmpago, fico com aquele silêncio sem força guardado dentro de mim, sinto-me esmorecer, perdendo a oportunidade de lançar uma bênção sobre o meu caminho. Estou desalinhado com a natureza, e se falha o ritual, se não há oportunidade de realizá-lo, estou perdendo a chance, enfraquecendo. Então os trovões que se seguem não respondem mais à minha coragem; antes, parecem repreender a covardia.

Buscar conciliação com a matéria arcaica em nós é imprescindível se desejamos uma melhor relação com nossas potencialidades. Efetivamente, precisamos travar contato com o que de absurdo e inominável parece reger o mundo, senão continuaremos antropormofizando nossos IPhones e acreditando que somos nossos avatares do facebook. Não devemos tentar fazer da realidade algo mais estúpido do que já é, acreditando que possuímos explicações para tudo e que essas explicações dão conta de exorcizar o mundo escuro que nos habita. A besta inefável deseja falar em nós, e é melhor que seja através do nosso consentimento e observação, do que pelas nossas costas, nos sabotando.

O que comumente convencionou-se a chamar de Diabo é pura falta de poesia.

Deus está morto. Nietzsche está morto.

Dancemos!

***

JD Lucas é mitólogo e escritor. Coordenador da Mythological RoundTable© Rio de Janeiro, núcleo da Joseph Campbell Foundation no Brasil. Ministra cursos no campo da mitologia e do simbolismo comparado. Criou o primeiro curso de Introdução ao Mito, além de O Caminho do Alquimista (utilizando o Tarô de Marselha como tema) e do curso de Mitologia Afro-Brasileira. Atua junto a instituições públicas e privadas na disseminação da mitologia como possibilidade de experiência do conhecimento. Para parcerias e dúvidas, ou se deseja um curso presencial para grupos específicos, envie e-mail para jdlucas.contato@gmail.com.

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