Absolutamente ignorante, extremamente inteligente

Há dois tipos de pessoa que considero insuportáveis: os absolutamente ignorantes, e os extremamente inteligentes. Cada qual, a seu modo, sabe muito bem como tornar a vida de qualquer pessoa mais ou menos consciente de si – digamos, você e eu – o maior dos fardos. E o que é que ambos tem em comum?

O ignorante não faz questão de conhecer ou entender o que quer que seja a respeito do outro; fecha-se em suas concepções e nelas procura morar, como se ideias – ou a falta delas – fossem prisões inescapáveis.

O inteligente é aquele que não perde a oportunidade de refutar, contrariar, subtrair, desmitificar aquilo que parece estar fora do que enxerga como única realidade possível. Qualquer que seja a informação que desafie sua lógica é considerada imediatamente inválida.

É fácil cruzar com qualquer um dos tipos. Ambos, tanto o ignorante como o inteligente, podem ser reduzidos a um único nome: são os chatos. No trabalho, na escola, na fila do pão, na livraria ou no facebook, o chato é figura onipresente. Onde quer que se vá, lá estará ele, tentando contornar ideias boas com pontos de vista limitados e — por conseguinte — irritantes.

Eles estão por aí: pastores sectários que não entendem que o seu corpo não pertence ao Estado, à Igreja ou mesmo a Deus, que seu corpo, a despeito de toda teoria, é afinal de contas, tudo o que VOCÊ tem. Se lhe tiram tudo, ainda restam — com sorte — braços e pernas, olhos e boca pra beijar e dizer o que quiser. Há também as bichas sectárias, que acham que todo mundo deve ser bicha, já que elas mesmas o são. Os chatos inclusive estão na política, decidindo — ou tentando decidir — o que você, eu e todos devemos comprar, fumar ou ler, a quem devemos amar, e a quem devemos prestar reverências; em suma, querem se intrometer na vida e nas escolhas alheias, talvez pela pobreza incalculável que sua própria existência encerra. Via de regra, muitos chatos — absolutamente ignorantes, extremamente inteligentes — acumulam as três categorias de interação social descritas acima. Não podem aceitar a mínima relativização das ideias em prol de uma visão mais abrangente que comporte múltiplas perspectivas. Tascam um “É assim porque é assim!” e procuram fazer da experiência do contato com o outro o verdadeiro inferno que experimentam na sua própria vida.

Ora direis ouvir estrelas, e eu vos direi no entanto: menos vale um chato à distância que um chato ainda mais longe.

Mas nada é tão fácil. Justamente por serem uns malas, é que se entranham nos nossos sistemas generosos e — feito vermes famintos querendo roer a carniça — fazem de tudo pra lograr nossas tentativas de abertura para um diálogo mais abrangente.

Mas não devemos nos amedrontar: nem mesmo um chato insistente é páreo para o desprezo daquele olhar que podemos emitir como dizendo: entendo que tudo isso que você diz é fruto da sua mentalidade mesquinha, posso enxergar os limites da sua ignorância (ou inteligência), mas não vou barganhar. Vá para o inferno.

No entanto — e isso é muito mais importante — não vamos confundir o desprezo com a falta de atitude: o chato merece não só que o ignoremos (afinal parece ser este o seu desejo inconsciente, a auto-sabotagem), mas que assumamos uma postura ativa diante da chatice, que impera no mundo das relações sociais em todos os seus níveis.

Combinamos então que, a partir de hoje e sempre, nenhum chato — seja cientista ou religioso — vai tomar da vida aquilo que procuramos cultivar com a maior sinceridade e desapego. Para isso, nenhum manual de instruções é necessário. Cada um tem seus métodos e caprichos para lidar com a chatice.

Ao chato, esse operário das ruínas, deixo um conselho: não seja.

JD Lucas é mitólogo, pesquisador associado à Joseph Campbell Foundation, e líder da RoundTable Mitológica Rio de Janeiro, célula brasileira do programa de discussões sobre o Mito capitaneado pela JC Foundation em todo o mundo. Atualmente, ministra os cursos de Mitologia Afro-Brasileira, Introdução ao Mito e Jornada para a Alma.

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