Hino da Pérola

O Hino da Pérola foi composto no primeiro século depois de Cristo. É uma passagem belíssima do evangelho apócrifo Atos de Tomé (Tomé o canta na prisão para seus companheiros de cela). Foi escrito em Siríaco (Um dialeto do Aramaico Médio, adotado pelo Cristianismo Ortodoxo Oriental). Mais tarde surgiu a versão em Grego. Suspeita-se que a autoria seja do gnóstico Bardesanes, autor de outros hinos da mesma natureza. Ironicamente, a versão siríaca é a menos confiável, por ter sofrido modificação da Igreja Católica. Talvez um dia seja inserido entre os textos canônicos, quando todos os livros forem queimados por inúteis.

Hino da Pérola

1 Quando era pequenino vivia em meu reino na casa de meu Pai

2 e na opulência e abundância de meus educadores encontrava meu prazer

3 quando meus pais me equiparam e enviaram desde o Oriente, minha pátria

4 Das riquezas de nosso tesouro me prepararam um enxoval pequeno,

5 mas valioso e leve para que eu mesmo o transportasse.

6 Ouro da casa dos deuses, prata dos grandes tesouros,

7 rubis da Índia, ágatas do reino de Kushan.

8 Me cingiram um diamante que pode talhar o ferro.

9 Me retiraram o vestido brilhante que eles amorosamente haviam feito para mim

10 e a toga púrpura que havia sido confeccionada para meu tamanho

11 Fizeram um pacto comigo e escreveram em meu coração, para que não o esquecesse, isto:

12 ”Se desces ao Egito e te apoderas da pérola única

13 que se encontra no fundo do mar na morada da serpente que faz espuma

14 vestirás de novo o vestido resplandecente e a toga que descansa sobre ele

15 e serás herdeiro de nosso reino com teu irmão, o mais próximo a nosso nível.

16 Abandonei Oriente e desci acompanhado de dois guias

17 pois o caminho era perigoso e difícil e era muito jovem para viajar.

18 Atravessei a região de Messena, o lugar de reunião dos mercadores do Oriente,

19 e alcancei a terra de Babel e penetrei no recinto de Sarbuj.

20 Cheguei ao Egito e meus companheiros me abandonaram.

21 Me dirigi diretamente à serpente e morei próximo de seu albergue

22 esperando que o sono a tomasse e dormisse e assim poder conseguir a pérola.

23 E quando estava absolutamente só, estrangeiro naquele país estranho,

24 vi um de minha raça, um homem livre, um oriental,

25 jovem, formoso e favorecido,

26 um filho de nobres, e chegou e se relacionou comigo

27 e o disse meu amigo íntimo, um companheiro a quem confiar meu segredo.

28 O adverti contra os egípcios e contra a sociedade dos impuros.

29 E me vesti com seus disfarces para que não suspeitassem que havia vindo de longe

30 para tirar-lhes a pérola e impedir que excitassem a serpente contra mim.

31 Mas de alguma maneira se deram conta de que eu não era um compatriota;

32 me estenderam uma armadilha e fizeram comer de seus alimentos.

33 Esqueci que era filho de reis e servi a seu rei;

34 esqueci da pérola pela qual meus pais me haviam enviado

35 e por causa da pesadez de seus alimentos caí em um sono profundo.

36 Mas isto que acontecia foi sabido por meus pais e se apiedaram de mim

37 e saiu um decreto de nosso reino, ordenando a todos, vir ante nosso trono,

38 aos reis e príncipes da Partia e a todos os nobres do Oriente.

39 E determinaram sobre mim que não devia permanecer no Egito,

40 e me escreveram uma carta que cada nobre firmou com seu nome:

41 “De teu Pai, o Rei dos reis, e de tua Mãe, a soberana do Oriente,

42 e de teu irmão, nosso mais próximo em nível, para ti, filho nosso, que estais no Egito, Saúdo!

43 Desperta e levanta-te de teu sono, e ouve as palavras de nossa carta.

44 Recorda que és filho de reis! Olha a escravidão em que caístes!

45 Recorda a pérola pela qual fostes enviado ao Egito!

46 Pensa em teu vestido resplandecente e recorda tua toga gloriosa

47 que vestirás e te adornará quando teu nome seja lido no livro dos valentes

48 e que teu irmão, nosso sucessor, será o herdeiro de nosso reino”.

49 E minha carta, era uma carta que o Rei selou com sua mão direita,

50 para preservá-la dos males, dos filhos de Babel e dos demônios selvagens de Sarbuj.

51 Voou como uma águia – a carta –, o rei dos pássaros;

52 voou e desceu sobre mim e chegou a ser toda palavra.

53 A sua voz e alvoroço me despertei e saí de meu sono.

54 A tomei, a beijei, retirei seu selo e a li:

55 e se acordavam com o escrito em meu coração, as palavras escritas na carta.

56 Recordei que era filho de reis, e livre por própria natureza.

57 Recordei a pérola, pela qual havia sido enviado ao Egito,

58 e comecei a encantar à terrível serpente que produz espuma.

59 Comecei a encantá-la e a adormeci depois de pronunciar sobre ela o nome de meu Pai,

60 e o nome de meu irmão e o de minha mãe, a rainha do Oriente;

61 e capturei a pérola e voltei para a casa de meus pais.

62 Retirei o vestido maculado e impuro e o abandonei sobre a areia do país,

63 e tomei o reto caminho em direção à luz de nosso país, o Oriente.

64 E minha carta, a que me despertou, a encontrava diante de mim, durante o caminho,

65 e o mesmo que me havia despertado com sua voz me guiava com sua luz.

66 Pois a (carta) real de seda brilhava diante de mim com sua forma

67 e com sua voz e sua direção

68 me animava e atraía amorosamente.

69 Continuei meu caminho, passei Sarbuj, deixei Babel a meu lado esquerdo.

70 E alcancei a grande Messena, o porto dos mercadores,

71 que está sobre a borda do mar.

72 E meu vestido de luz, que havia abandonado, e a toga pregada junto a ele,

73 das alturas de Hyrcania meus pais os enviaram a mim,

74 por meio de seus tesoureiros, a cuja fidelidade se os havia confiado,

75 e posto que eu não recordava sua dignidade já que em minha infância havia abandonado a casa de meu Pai,

76 de improviso, como os enfrentara, o vestido me pareceu como um espelho de mim mesmo.

77 O vi todo inteiro em mim mesmo, e a mim mesmo inteiro nele,

78 posto que nós eramos dos diferentes e, não obstante, novamente uno em uma única forma.

79 E aos tesoureiros igualmente, os quais trouxeram a mim, os vi em semelhante maneira,

80 já que eles eram dois, embora como um, posto que sobre eles estava gravado um único selo do Rei,

81 o qual me restituía meu tesouro e minha riqueza por meio deles,

82 meu luminoso vestido bordado, que estava ornado com gloriosas cores,

83 com ouro e com berilos, com rubis e ágatas

84 e ágatas de variadas cores, também havia sido confeccionado na mansão do alto

85 e com diamantes, haviam sido floreadas suas costuras.

86 E a imagem do Rei dos reis estava pintada em todo ele,

87 e também com as safiras rutilavam suas cores.

88 E novamente vi que todo ele se agitava pelo movimento de meu conhecimento

89 e como se prepara-se para falar o vi.

90 Ouvi o som do canto que recitava ao descer,

91 dizendo: “Sou o mais dedicado dos servidores que se puseram a serviço de meu Pai,

92 e também percebi em mim que minha estatura crescia conforme a seus trabalhos”.

93 E em seus movimentos reais se estendeu em direção a mim,

94 e das mãos de seus portadores e incitou a tomá-lo.

95 E também meu amor me urgia para que corresse a seu encontro e o tomasse,

96 e assim o recebi e com a beleza de suas cores me adornei.

97 E minha toga de cores brilhantes me envolveu todo inteiro,

98 e me vesti e ascendi em direção à porta da saudação e da homenagem;

99 inclinei a cabeça e rendi homenagem à Majestade de meu Pai que o havia enviado até mim,

100 porque havia cumprido seus mandamentos e ele também havia cumprido sua promessa,

101 e à porta de seus príncipes, me mesclei com seus nobres;

102 pois se regozijou por mim e me recebeu, e fui com ele em seu reino.

103 E com a voz da oração todos seus servos o glorificaram.

104 E me prometeu que também até a porta do Rei dos reis iria com ele,

105 e levando meu obséquio e minha pérola aparecia com ele diante de nosso Rei.

Um comentário sobre “Hino da Pérola

  1. Que lindo, me fez lembrar: “A queda adâmica… o céu e o inferno aqui e agora… a cada momento de desatenção, o anjo é decaído ao plano psicológico ou plano do esquecimento, mas também o plano da possibilidade da lembrança correta” … Rizek APH 1991…

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