O Saci

Tive uma infância de certa forma rural. Belford Roxo era um ermo recém emancipado de Nova Iguaçu, longe demais das capitais. O asfalto chegava em caminhões cada vez mais, a luz elétrica, os homens vestidos de azul trazendo o progresso.

A rua de cima, no entanto, continuava inexplorada. Lugar de nossas brincadeiras, onde à noite brotavam os monstros. Chegavam notícias de bichos e criaturas bizarras, povoavam os espaços escuros de nosso imaginário. Uma menina disse que viu uma cobra de duas cabeças outra dizia ser a sobrinha da mula sem cabeça, uma tia sua que fora amaldiçoada por ter se apaixonado por um padre; além dos vários demônios do mato, espíritos, fantasmas, um palhaço que já apareceu pra todas as mulheres da minha família e por aí afora. Dado importante é que se à meia noite você encravasse um facão virgem na bananeira (também virgem), surgiria o saci num pé de vento para conceder um desejo; mas o bicho é matreiro, se você não traçasse um círculo em volta de si tomaria uma surra de chicote.

Luís da Câmara Cascudo anota sobre o Saci em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, 12ª Ed. Global 2012:

Saci-Pererê, entidade maléfica em muitas, graciosa e zombeteira noutras oportunidades, comuns nos Estados do Sul. Pequeno negrinho, com uma só perna, carapuça vermelha na cabeça, que o faz encantado, ágil, astuto, amigo de fumar cachimbo, de entrançar as crinas dos animais, depois e extenuá-los em correrias, durante a noite, anuncia-se pelo assobio persistente e misterioso, inlocalizável e assombrador. Pode dar dinheiro. Não atravessa água como todos os “encantados”. Diverte-se criando dificuldades domésticas, apagando o lume, queimando alimentos, espantando o gado, espavorindo os viajantes nos caminhos solitários. Há muita documentação sobre o Saci, origem e modificação. Os cronistas do Brasil colonial não o mencionam. Parece ter nascido no séc. XIX ou finais do antecedente. Conhecemos aves com o seu nome. o carapuço vermelho é o pileus romano, e já Petrônio (Satyricon, XXXVIII) registrava  a crendice humana do pileus do íncubo dar riqueza a quem o arrebatasse. O negrinho buliçoso, visível ou invisível, troçando de todos, aparece no folclore português. Os elementos do Saci e suas armas vêm de muitas paragens e são dos melhores tipos de convergência. (O Saci-Pererê, “Resultado de um Inquérito”, São Paulo 1917, reuniu extenso documentário sobre o mito).”

E você, acredita em Saci?

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