O Que é o Mito?

Muitos pensadores já se debruçaram sobre o assunto: como entender essas produções do Espírito que ultrapassam eras e se fixam como um reservatório de significados inesgotáveis? Afinal, o que é o mito?

Se tomarmos as narrativas da antiguidade que os gregos, os escandinavos, os negros, os incas e outros povos nos legaram, será fácil notar que o relato mítico expressa uma revelação, espécie de desejo ou sonho coletivo personificado.

No entanto, como potência, o mito não pode ser inteiramente decriptado, classificado; isso porque sua tessitura estará sempre implicada na constituição do real, fundamentando nosso próprio modo de existir e pensar o mundo. Vivemos o mito na carne. Por mais que o interpretemos, tentando reduzi-lo a um conteúdo didático formal, existe algo de sua essência que se mantém intacta, inescrutável, misteriosa.

A psicanálise propôs e desenvolveu um ponto de vista bastante esclarecedor a respeito do mito. Sigmund Freud postulou a universalidade do Édipo, e sua relação com o complexo de castração e os processos de reconhecimento da identidade individual. Logo então, seu colega Jung rompeu com esta premissa, não por exclusão, mas para propor uma concepção ainda mais abrangente: não só o Édipo, mas todo escopo mítico de que dispomos está radicado na psique universal, são expressões nucleares fundamentais. A este repositório de informações, Jung deu o nome de inconsciente coletivo, a instância dinâmica subjacente à consciência, que fomenta inclusive a existência desta, e promove a difusão de motivos similares por todo o globo. O mito então passa a ser entendido como um dado intimamente relacionado com o surgimento da vida, e seria uma função ou espelho desta.

Sobre o mito, Jung nos diz:

Para compreender sua função viva devemos permitir que permaneça uma coisa orgânica em toda sua complexidade e não tratar de analisar a anatomia de seu cadáver na forma como faz o científico, ou a arqueologia de suas ruínas, da maneira que faz o historiador… ‘de onde’ vem as coisas e ‘o que são’, isso particularmente no campo da psicologia, são perguntas que parecem pedir intentos últimos de explicação. Tais especulações estão por outra parte baseadas mais em inconscientes premissas filosóficas que na natureza dos próprios fenômenos.

Essays on a science of mythology, C.G. Jung e C. Kerenyi, pág. 217, 218 (Tradução própria).

Jung propõe que para ser experienciável de maneira abrangente, o mito deve ser entendido como função orgânica, detentora de seu próprio dinamismo, independente de pré-concepções a respeito de sua natureza primeira (se a alma provém ou não provém de Deus, por exemplo), do que se deseje como sendo a verdade.

Joseph Campbell concordará com esta acepção:

Em todo o mundo habitado, em todas as épocas e sob todas as circunstâncias, os mitos humanos têm florescido; da mesma forma, esses mitos têm sido a viva inspiração de todos os demais produtos possíveis das atividades do corpo e da mente humana. Não seria demais considerar o mito a abertura secreta através da qual as inexauríveis energias do cosmos penetram nas manifestações culturais humanas. As religiões, filosofias, artes, formas sociais do homem primitivo e histórico, descobertas fundamentais da ciência e da tecnologia e os próprios sonhos que nos povoam o sono surgem do círculo básico e mágico do mito.

O Herói de Mil Faces (1949), página 15.

Concepções modernosas, intentando uma lógica pura, procuraram destituir o mito de sua característica definidora, qual seja, a capacidade de inspirar nossos centros criativos em profunda ressonância com nossa constituição psíquica. Postulou-se o mito como relato falacioso, não raro propondo-se a invalidação de seus pressupostos, a desconsideração de sua expressividade, a nulidade de seu valor. Um argumento que já nasce morto, porque se faz dentro da linguagem, através dela; e a linguagem, em si, anima o que quer que seja e constrói suas próprias redes dinâmicas de fabulação e significado. O fato é que tudo aquilo que a imaginação puder conceber exercerá alguma influência sobre nós. Negar absolutamente a validade do conteúdo mitológico é como questionar uma afirmação da fé. Para o sujeito que crê, não se trata apenas de um argumento baseado numa suposição, mas da experiência imediata que implica o real numa condição transcendente, de relação com a existência de uma energia viva, atuante e inclassificável.

Mais uma vez, Jung:

Insistimos talvez demais na questão, no fundo estéril, de saber se as afirmações da fé são verdadeiras ou não. Abstraindo o fato de que é impossível provar ou refutar a verdade de uma afirmação metafísica, a simples existência da afirmação já constitui uma realidade evidente por si mesma, não necessitando de outra prova.

Por que razão a pergunta quem sou eu? Constitui o primeiro grande objeto da lista de questionamentos do homem? A esperança é a de que, conhecendo a resposta, tomaremos posse de nossa totalidade potencial, e todos os demais enigmas da existência — De onde viemos? Qual o sentido de existir? — deixarão de nos angustiar. Seremos senhores de nós mesmos. É neste limiar, entre a formulação da pergunta e a intuição da resposta que o mito atua.

O mito oferece respostas a quaisquer perguntas que se possa formular sobre nossa origem e estado, mas não o fará de maneira alguma por uma via lógica, pois a lógica traça um caminho, encontra uma via no caos. O mito, ao contrário, enquanto resposta, é absoluto, aberto, decisivo, assume o caos e o compreende. Não trabalha com especulações, mas está enraizado na experiência do existir.

Fabular está no cerne de nossas disposições existenciais. São nossas ficções que produzem brechas na opacidade do real, por onde jorra o imaginário que irá configurar e tornar habitável a própria vida. O que é o mito, senão este lugar onde a palavra É? O que é o mito, senão este elo entre homens que jamais se conheceram, culturas que jamais se cruzaram, desejos, os mais díspares, cujo fundamento comum parece ser esta profunda necessidade de significação.

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