Eric Silva

Pedra de Raio

Quando eu era criança no interior do Paraná, algumas vezes ouvi minha mãe contar que quando caía um raio este conduzia uma pedra no seu interior e que, às vezes, era possível encontrar alguma pedra dessas. Corroborando essa história, minha mãe afirmava que certa ocasião quando ela se encontrava na roça colhendo milho, viu e ouviu um desses raios em pleno céu límpido sem chuva. Dias depois em outro trecho do roçado ela deparou-se com a pedra que teria caído com aquele raio. Guardou a pedra – negra, ligeiramente assemelhada com um machado sem cabo, com arestas arredondadas – por muitos anos, mas esta se extraviou por ocasião de alguma mudança ainda no seu tempo de solteira e nunca mais a encontrou. Obviamente eu acreditava na minha mãe, mas tinha acentuada dúvida quanto à origem daquela “pedra de raio” que ela guardou como uma relíquia por muito tempo

Pois bem, hoje lendo um despretensioso livro “Ontem, o Universo” que trata das origens do universo, do sistema solar e da terra, me deparei com um trecho sobre meteoritos bem interessante, do qual transcrevo parte:

Em todos os tempos, os homens se impressionaram com a queda dos meteoritos. De fato, o espetáculo é grandioso: um rastro de luz atravessa a uma velocidade de dez a vinte quilômetros por segundo, acompanhado de um barulho de trovão prodigioso. Esse fenômenos, visíveis numa extensão de vários milhares de quilômetros quadrados, aterrorizavam as populações. Um acontecimento desses, evidentemente, não podia passar despercebido.

Na antiguidade, os homens conheciam a origem dessas pedras. Foram encontrados hieróglifos que uma delas era designada “pedra caída do céu”. Os egípcios, aliás, utilizavam alguns desses meteoritos que, as vezes, contém ferro em estado de metal quase puro. Encontraram-se armas e ferramentas forjadas com ferro proveniente desses meteoritos. Os gregos e os romanos também conheciam a origem extraterrena dessas pedras e, durante muito tempo, atribuíam um poder mágico a esses objetos. Em diversas civilizações alguns meteoritos eram até divinizados. É possível que famosa Pedra Negra de Meca, santuário do islamismo, seja um meteorito. Curiosamente, a atitude mudou na Idade Média, pois, se o mundo greco-romano nos deixou numerosos testemunhos de seu elevado nível cultural, a humanidade iria entrar, em seguida, em um longo período de obscurantismo.

Foi, então, preciso esperar até o século XIX para se verificar uma mudança de mentalidade: no dia 26 de abril de 1803, uma verdadeira chuva de pedras caiu nas cercanias de Aigle, França. Cerca de 3000 pedaços do meteorito foram encontrados sobre uma superfície de aproximadamente 50 quilômetros quadrados. E, desta vez, a Academia de Ciências enviou observadores que tiveram que se render às evidências: de fato, tudo aquilo tinha mesmo caído do céu!

A tradição popular ainda atribui um poder mágico a esses objetos. Em lugarejos do interior (Aqui lembro de minha mãe que vivia numa pequena localidade chamada Pinheiral de Baixo), são chamados “pedras de raio”. O que mostra simplesmente que sua queda se faz acompanhar de um clarão e um troar de trovão. Às vezes, são encontrados sobre esse nome objetos talhados pelo homem pré-histórico, e sua origem também era atribuída ao raio. “Seja como for, o camponês (minha mãe, novamente) que achasse tais objetos guardava-os como preciosidades, fixando-os na parte de cima da porta de entrada de sua habitação: a casa ficava, assim, protegida contra incêndios…”

À minha mãe, já falecida, peço perdão se em algum momento possa ter deixado de acreditar plenamente na origem da sua “pedra de raio” tão estimada e venerada. A crença dela estava em sintonia exata com o que a tradição popular de seu tempo entendia como verdade verdadeira. JAIR, Floripa, 23/04/2013.

Fonte: Jair Lopes

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Considerações sobre a Sombra Coletiva

(…) O ser humano conquista não só a natureza como também o espírito sem dar-se conta do que está fazendo. Para a mente iluminada, parece tratar-se da correção de um equívoco o fato de reconhecer que aquilo que antes era considerado como sendo espíritos, na realidade é o espírito humano, isto é, seu próprio espírito. Todo o sobre-humano, tanto no bem como no mal, que os antigos afirmavam acerca dos daemonia a modo de um exagero, é reduzido à sua medida “sensata” e assim tudo parece estar na mais perfeita ordem. Será, no entanto, que as convicções unânimes do passado eram verdadeiramente apenas exageros? Se não o fossem, a integração do espírito humano nada mais significaria do que uma demonização do mesmo, na medida em que forças espirituais sobre-humanas, outrora atadas na natureza, são integradas no ser humano, conferindo-lhe um poder o qual transpõe os limites do ser humano, do modo mais perigoso, para o indeterminado. Devo formular a seguinte pergunta ao racionalista esclarecido: será que a sua redução sensata conduziu a um domínio benéfico da matéria e do espírito? Orgulhosamente ele apontará os progressos da física e da medicina, a libertação do espírito da estupidez medieval e, como cristão bem intencionado, a libertação do medo dos demônios. Continuamos porém a perguntar: a que levaram as outras conquistas culturais? A resposta terrível está diante de nossos olhos: não nos libertamos de medo algum, um pesadelo sinistro pesa sobre o mundo. A razão até agora fracassou lamentavelmente e justamente aquilo que todos querem evitar acontece numa progressão horripilante. O homem conquistou coisas utilitariamente fabulosas, mas em compensação escancarou o abismo no mundo e como conseguirá parar, se ainda for possível? Depois da última guerra mundial ainda se esperava que a razão predominasse; a espera continua ainda, mas já estamos fascinados pelas possibilidades de fissão do urânio e prometemos a nós mesmos uma era de ouro — a maior garantia de a abominação destruidora crescer ilimitadamente. E quem é o causador de tudo isso? É o espírito humano considerado inofensivo, engenhoso, inventivo e sensato, que infelizmente não tem consciência do demonismo inerente a ele. Sim, este faz tudo para não se defrontar com o próprio rosto, e todos nós o ajudamos na medida do possível. Deus nos livre da psicologia, pois tais digressões poder-nos-iam levar ao autoconhecimento! Preferimos as guerras a isso, pois elas são sempre a culpa do outro; ninguém vê que o mundo inteiro está possesso, pois fazemos aquilo que mais tememos e aquilo do que fugimos. Para falar com franqueza, parece-me que os tempos passados não exageraram, que o espírito não se livrou de seu demonismo e que os homens, devido ao desenvolvimento técnico-científico, ficaram entregues ao perigo crescente da possessão. O arquétipo do espírito é certamente caracterizado como sendo capaz de efeitos tão bons quanto maus, mas depende da decisão livre, isto é, consciente da criatura humana, que o bem não se deteriore em algo satânico. Seu pior pecado é a inconsciência, mas a ela se entregam com a maior devoção até mesmo aqueles que deveriam ser mestres e modelos para os outros. Quando cessaremos de pressupor que o homem é simplesmente bárbaro, procuraremos seriamente os meios e caminhos para exorcizá-lo e arrancá-lo de sua possessão e inconsciência, transformando esta tarefa no mais importante feito da cultura? Não podemos entender afinal que todas as modificações e melhorias externas nada alteram no que concerne à natureza humana, tudo depende em última análise da forma pela qual o ser humano manipula a ciência e a técnica, tornando-se responsável por seus efeitos? Com certeza, o cristianismo abriu-nos o caminho, porém permaneceu na superfície, não tendo penetrado suficientemente fundo, como os fatos comprovam.

Que desespero será necessário ainda até que se abram os olhos dos líderes responsáveis pelo destino da humanidade, a fim de que pelo menos eles mesmos possam resistir à tentação?

Carl Gustav Jung, em Arquétipos do Inconsciente Coletivo, pág. 98

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O Livro Vermelho de Jung

Recentemente foi lançado o tão esperado Livro Vermelho, ou Liber Novus, como o chamou Carl Gustav Jung. O criador da psicologia analítica terminou a obra por volta de 1930 e na época optou por não divulgá-la devido ao seu caráter extremamente pessoal. Mesmo depois de sua morte, em 1961, a família de Jung preferiu manter o trabalho oculto. Mas agora, depois de mais de dez anos de negociações e preparo, o livro é apresentado ao público.

Todas as grandes obras da tradição ocidental compõem o universo cultural de Jung e o influenciaram de certa forma. É possível perceber grandes influências na composição de O Livro vermelho: Zaratustra, de Nietzsche, A divina comédia, de Dante, Fausto, de Goethe. Mas o Líber novus é novo e originalíssimo tanto na forma e apresentação quanto no conteúdo. Enquanto Nietzsche apregoou a morte de Deus, uma nova ética, a “transformação de todos os valores”, O Livro vermelho traz a novidade do renascimento da divindade interior, da experiência pessoal pela transcendência das instituições. Enquanto Dante realiza uma viagem interior de aprofundamento, personificando em Virgílio um guia para o mundo dos mortos, Jung tem múltiplos guias, sendo o mago Philemon – aquele que centraliza o conhecimento intuitivo – o maior de todos.

O livro começa em dezembro de 1913, quando Jung tem uma visão enquanto viajava para visitar uma parente, em uma cidade próxima a Zurique: toda a Europa coberta por um mar de sangue, com milhares de cadáveres boiando, do norte até o sul. É uma imagem terrível que se repetiu como se fosse um sonho aterrorizante. Ele relatou os detalhes em seu livro de memórias, assinalando a necessidade premente que sentiu de compreender o sentido. De início, chegou a pensar que estivesse sofrendo de uma grave crise psíquica e que a visão talvez dissesse respeito a uma doença mental iminente. Só quando pouco tempo depois a Europa mergulhou na Primeira Guerra Mundial (1914- 1918) com seus incontáveis mortos e o profundo sofrimento para milhões, ele pôde compreender o sentido antecipatório de sua visão. Ficou claro para ele que as poderosas imagens que se desenrolaram a partir daí em fluxo caudaloso em fantasias e sonhos falavam também de algo interno, uma profunda transformação interior. As mudanças interiores aconteciam paralelamente às dolorosas alterações da estrutura mundial.

Em sua vida particular, Jung atravessava um período de mudanças radicais. Havia rompido com Freud e afastava-se do movimento psicanalítico que se afirmava gradualmente em toda a Europa. Estava quebrando os laços com a Associação Internacional de Psicanálise, instituição da qual fora o primeiro presidente. Aos 38 anos, atravessava então uma típica crise de metade de vida, como ele próprio viria a chamar depois.

A intensa experiência presente em O Livro vermelho pode dar a falsa impressão de que a obra tenha caráter “revelatório” e seja escrita com base em significativas experiências subjetivas, expressas de forma direta. Mas não é o caso. O trabalho sofreu várias revisões, foi escrito em diversas fases, revisto pelo autor ao longo dos anos, mostrado a um círculo íntimo de amigos, aperfeiçoado e bem-acabado em sua apresentação e conteúdo. O curioso é que a obra completa de Jung em 19 volumes tem alguns textos que são realmente do tipo revelatório, escritos após inspiração súbita. Tal é o caso, por exemplo, de Resposta a Jó. Segundo a seguidora de Jung, Marie-Louise von Franz, o livro foi escrito de uma só vez, de forma fortemente inspiracional”. Durante a produção, o autor teria apresentado alteração de temperatura corporal.

Em O Livro vermelho, entretanto, embora partindo de intensas experiências de sonho e fantasia, os diversos capítulos sofrem depois um processo de elaboração racional e aperfeiçoamento, uma tentativa de elaboração e integração da experiência do inconsciente aos processos mentais conscientes. Poderíamos dizer que o livro é um constante oscilar entre os dois tipos de pensamento: o onírico e o mitológico (do inconsciente) e o racional (típico da consciência). A experiência intuitiva criativa aparece em forma de personagens e histórias. Esses processos intuitivos são, em um segundo momento, elaborados pela mente racional consciente em busca de um sentido simbólico que sintetize ambas as formas de pensar.

Tomemos, por exemplo, entre as inúmeras cenas do livro o encontro de Jung com o herói mitológico Izdubar. O psiquiatra suíço caminha em uma de suas fantasias em direção ao Oriente, por um longo trajeto que parece não ter fim. A paisagem tem horizontes que se perdem na distância. Subitamente, aparece ao longe um vulto enorme, de proporções gigantescas. Jung sente um profundo temor e respeito pela figura primitiva, semelhante a um herói antigo, com vestes típicas das sociedades tribais. Indagado sobre quem é, o herói diz ser Izdubar, o poderoso, e que se dirige ao Ocidente para conhecer os países da terra longínqua e seus habitantes. Jung diz que vem do Ocidente, fala das pessoas, suas cidades e sua capacidade de se deslocar em máquinas voadoras para terras distantes. A partir daí se desdobra um diálogo entre Izdubar, um ser cheio de crenças, temente ao poder do mito e da magia, e Jung, possuidor do pensamento racional e científico.

Izdubar é tomado pelo medo do poder da razão, torna-se extremamente fraco e teme morrer, aniquilado pela racionalidade do ser de estatura diminuta. Já Jung teme pela morte iminente de Izdubar. O que se passa a seguir é comovente: para salvar o interlocutor, o psiquiatra entoa encantamentos védicos da antiga Índia, palavras mágicas de restituição de vigor. O herói da mitologia se torna então diminuto e, surpreendentemente, é guardado por Jung em um ovo. Depois de certo tempo é restaurado ao seu tamanho natural, a salvo e revigorado.

Temos aqui não a morte de Deus anunciada por Nietzsche, mas a assimilação dos deuses antigos e seu renascer sob nova forma simbólica de experiência psicológica subjetiva. Jung anunciaria muito mais tarde, nos anos 30, que os deuses clássicos não morreram, mas, recalcados, reapareceriam em forma de doença, causando os mais curiosos fenômenos apresentados pelos pacientes.

A quase morte do deus e sua restauração em forma simbólica, um processo de integração do pensamento mitológico do inconsciente pela razão onisciente, é de uma sutileza tão grande e uma profundidade tão difícil de expressar que Jung julga as palavras insuficientes para transmitir o que ocorre. Por isso, recorre nessa parte do livro ao recurso da linguagem não verbal de poderosas pinturas coloridas, imagens de grande densidade de significado: mandalas, cores e os mais diversos símbolos. Um Jung surpreendente – o artista plástico – revela-se aqui em pinturas de grande beleza estética e densidade de significado.

Esse modelo de comunicação, o uso de metáforas poderosas aliadas a ilustrações igualmente significativas, é absolutamente pessoal e revolucionário. Se desde Anna O. temos anunciado que a psicoterapia é “uma cura pela fala”, temos aqui constatado, nos inícios da elaboração da escola junguiana, que a psicoterapia também é “uma cura pela não fala”, pelas técnicas expressivas diversas, não verbais.

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Outro aspecto do maior interesse é o nome do deus: Izdubar. Trata-se do antigo nome, depois corrigido, do herói sumeriano Gilgamesh, personagem do antiquíssimo mito Gilgamesh, rei de Uruk. Jung teve conhecimento, e não há dúvida disso, de que o nome histórico Izdubar havia sido corrigido para Gilgamesh em textos anteriores ao O Livro vermelho. Por que manteve a palavra Izdubar? Porque foi sob esse nome que a entidade mitológica se revelou a ele – e isso demonstra que as diversas figuras históricas, bíblicas e mitológicas que povoam sua obra não são os personagens que conhecemos dos livros clássicos e da Bíblia, mas experiências internas de Jung personificadas.

Ainda é cedo para tentar prever todo o efeito que O Livro Vermelho terá sobre a avaliação e o conhecimento das ideias do criador da psicologia analítica. Mas conhecendo-o agora, um século depois de ter sido iniciado, deve-se lamentar ele não ter sido antes revelado aos estudiosos junguianos e ao público em geral. Toda a avaliação da obra do autor será feita de nova forma, de outra perspectiva para entender a extensa realização daquele que foi, ao lado de Freud, um dos principais criadores da psicologia moderna.

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A obra impressiona. Chamado de “o grande livro” devido ao formato – 30 cm x 40 cm, com 10,5 cm de lombada e capa dura, obviamente vermelha –, levou 16 anos para ser finalizado e deu base aos escritos de C. G. Jung. Os manuscritos ilustrados constituem um belo trabalho artístico ligado ao universo inconsciente e à psicologia arquetípica. Nas 404 páginas do miolo, o leitor encontra um caderno iconográfico com imagens do manuscrito original, reproduções e pinturas feitas pelo próprio autor. A edição brasileira é rigorosamente fiel ao projeto original.

O Livro Vermelho (Liber Novus). C. G. Jung – Editora Vozes, 2010. 404 págs. – R$ 300,00 a 560,00

Adaptado de Mente & Cérebro