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O Dilúvio Na Epopeia de Gilgamesh

Aqui está o relato do Dilúvio conforme visto na Epopeia de Gilgamesh, quando este encontra Utnapishtim, que lhe conta como se tornou imortal e sobreviveu ao Dilúvio.

 Toda a epopeia, aliás, é incrível, recomendo muitíssimo a leitura.

Boa leitura! Não vá se afogar!

ANÔNIMO. A Epopéia de Gilgamesh. 3. ed. Brasil: Wmf Martins Fontes, 2011.

“Conheces a cidade de Shurrupak, que fica às margens do Eufrates? A cidade envelheceu, assim como os deuses que ah moravam. Havia Anu, o senhor do firmamento e pai da cidade; o guerreiro Enhl, seu conselheiro; Ninurta, o ajudante; e Ennugi, que vigiava os canais. Entre eles também se encontrava Ea. Naqueles dias a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: ‘O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.’ Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana. Foi o que Enlil fez, mas Ea, por causa de sua promessa, me avisou num sonho. Ele denunciou a intenção dos deuses sussurrando para minha casa de colmo: ‘Casa de colmo, casa de colmo! Parede, oh, parede da casa de colmo, escuta e reflete. Oh, homem de Shurrupak, filho de Ubara-Tutu, põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deveras construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a
semente de todas as criaturas vivas.’

“Quando compreendi, eu disse ao meu senhor: ‘Sereis testemunha de que honrarei e executarei aquilo que me ordenais, mas como explicarei às pessoas, à cidade, aos patriarcas?’ Ea então abriu a boca e
falou a mim, seu servo: ‘Dize-lhes isto: Eu soube que Enlil está furioso comigo e já não ouso mais caminhar por seu território ou viver em sua cidade; partirei em direção ao golfo para morar com o meu senhor Ea.
Mas sobre vós ele fará chover a abundância, a colheita farta, os peixes raros e as ariscas aves selvagens. A noite, o cavaleiro da tempestade vos trará uma torrente de trigo.’

“Ao primeiro brilho da alvorada, toda a minha família se reuniu ao meu redor; as crianças trouxeram o piche e os homens todo o resto necessário. No quinto dia eu aprontei a quilha, montei a ossatura da embarcação e então instalei o tabuado. O barco tinha um acre de área e cada lado do convés media cento e vinte côvados, formando um quadrado. Construí abaixo mais seis conveses, num total de sete, e dividi cada um em nove compartimentos, colocando tabiques entre eles.Finquei cunhas onde elas eram necessárias, providenciei as zingas e armazenei suprimentos. Os carregadores trouxeram o óleo em cestas. Eu joguei piche, asfalto e óleo na fornalha. Mais óleo foi consumido na calafetagem, e mais ainda foi guardado no depósito pelo capitão da nave. Eu abati novilhos para a minha família e matava diariamente uma ovelha. Dei vinho aos carpinteiros do barco como se fosse água do rio, vinho verde, vinho tinto, vinho branco e óleo. Fez-se então um banquete como os que são preparados à época dos festejos do ano-novo; eu mesmo ungi minha cabeça. No sétimo dia, o barco ficou pronto.

“Foi com muita dificuldade então que a embarcação foi lançada à água; o lastro do barco foi deslocado para cima e para baixo até a submersão de dois terços de seu corpo. Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo — os domesticados e os selvagens — e todos os artesãos. Eu os coloquei a bordo, pois o prazo dado por Shamash já havia se esgotado; e ele disse: ‘Esta noite, quando o cavaleiro da tempestade enviar a chuva destruidora, entra no barco e te fecha lá dentro.’ Era chegada a hora. Caiu a noite e o cavaleiro da tempestade mandou a chuva. Tudo estava pronto, a vedação e a calafetagem; eu então passei o timão para Puzur-Amurri, o timoneiro, deixando todo o barco e a navegação sob seus cuidados.

“Ao primeiro brilho da alvorada chegou do horizonte uma nuvem negra, que era conduzida por Adad, o senhor da tempestade. Os trovões retumbavam de seu interior, e, na frente, por sobre as colinas e

planícies, avançavam Shul-lat e Hanish, os arautos da tempestade. Surgiram então os deuses do abismo; Nergal destruiu as barragens que represavam as águas do inferno; Ninurta, o deus da guerra, pôs abaixo os diques; e os sete juizes do outro mundo, os Anunnaki, elevaram suas tochas, iluminando a terra com suas chamas lívidas. Um estupor de desespero subiu ao céu quando o deus da tempestade transformou o dia em noite, quando ele destruiu a terra como se despedaça um cálice. Por um dia inteiro o temporal grassou devastadoramente, acumulando fúria à medida que avançava e desabando torrencialmente sobre as pessoas como os fluxos e refluxos de uma batalha; um homem não conseguia ver seu irmão, nem podiam os povos serem vistos do céu. Até mesmo os deuses ficaram horrorizados com o dilúvio; eles fugiram para a parte mais alta do céu, o firmamento de Anu, onde se agacharam contra os muros e ficaram encolhidos como covardes. Foi então que Ishtar, a Rainha do Céu, de voz doce e suave, gritou como se estivesse em trabalho de parto: ‘Ai de mim! Os dias de outrora estão virando pó, pois ordenei que se fizesse o mal; por que fui exigir esta maldade no conselho dos deuses? Eu impus as guerras para a destruição dos povos, mas acaso estes povos não pertencem a mim, pois fui eu quem os criou? Agora eles flutuam no oceano como ovas de peixe.’ Os grandes deuses do céu e do inferno verteram lágrimas e se calaram.

“Por seis dias e seis noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. Na alvorada do sétimo dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou. Eu olhei a face do mundo e o silêncio imperava; toda a humanidade havia virado argila. A superfície do mar se estendia plana como um telhado. Eu abri uma janelinha e a luz bateu em meu rosto. Eu então me curvei, sentei e chorei. As lágrimas rolavam pois estávamos cercados por uma imensidade de água. Procurei em vão por um pedaço de terra. A quatorze léguas de distância, porém, surgiu uma montanha, e ali o barco encalhou. Na montanha de Nisir o barco ficou preso; ficou preso e não mais se moveu. No primeiro dia ele ficou preso; no segundo dia ficou preso em Nisir e não mais se moveu. Um terceiro e um quarto dia ele ficou preso na montanha e não se moveu. Um quinto e um sexto dia ele ficou preso na montanha. Na alvorada do sétimo dia eu soltei uma pomba e deixei que se fosse. Ela voou para longe, mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei uma andorinha, que voou para longe; mas, não encontrando um lugar para pousar, retornou. Então soltei um corvo. A ave viu que as águas haviam abaixado; ela comeu, voou de um lado para o outro, grasnou e não mais voltou para o barco. Eu então abri todas as portas e janelas, expondo a nave aos quatro ventos. Preparei um sacrifício e derramei vinho sobre o topo da montanha em oferenda aos deuses. Coloquei quatorze caldeirões sobre seus suportes e juntei madeira, bambu, cedro e murta. Quando os deuses sentiram o doce cheiro que dali emanava, eles se juntaram como moscas sobre o sacrifício. Finalmente, então, Ishtar também apareceu; ela suspendeu seu colar com as jóias do céu, feito por Anu para lhe agradar. ‘Oh, vós, deuses aqui presentes, pelo lápis-lazúli que circunda meu pescoço, eu me lembrarei destes dias como me lembro das jóias em minha garganta; não me esquecerei destes últimos dias. Que todos os deuses se reúnam em torno do sacrifício; todos, menos Enlil. Ele não se aproximará desta oferenda, pois sem refletir trouxe o dilúvio; ele entregou meu povo à destruição.’

“Quando Enlil chegou e viu o barco, ele ficou furioso. Enlil se encheu de cólera contra o exército de deuses do céu. ‘Alguns destes mortais escaparam? Ninguém deveria ter sobrevivido à destruição.’ Então Ninurta, o deus das nascentes e dos canais, abriu a boca e disse ao guerreiro Enlil: ‘E que deus pode tramar sem o consentimento de Ea? Somente Ea conhece todas as coisas.’ Então Ea abriu a boca e falou para o guerreiro Enlil: ‘Herói Enlil, o mais sábio dos deuses, como pudeste tão insensatamente provocar este dilúvio?

Inflige ao pecador o seu pecado,

Inflige ao transgressor a sua transgressão,

Pune-o levemente quando ele escapar,

Não exageres no castigo ou ele sucumbirá;

Antes um leão houvesse devastado a raça humana

Em vez do dilúvio,

Antes um lobo houvesse devastado a raça humana

Em vez do dilúvio,

Antes a fome houvesse assolado o mundo

Em vez do dilúvio.

Antes a peste houvesse assolado o mundo 

Em vez do dilúvio.

Não fui eu quem revelou o segredo dos deuses; o sábio soube dele através de um sonho. Agora reuni-vos em conselho e decidi sobre o que fazer com ele.’

“Enlil então subiu no barco, pegou a mim e a minha mulher pela mão e nos fez entrar no barco e ajoelhar, um de cada lado, com ele no meio. E tocou nossas testas para abençoar-nos, dizendo: ‘No passado, Utnapishtim era um homem mortal; doravante ele e sua mulher viverão longe, na foz dos rios.’ Foi assim que os deuses me pegaram e me colocaram aqui para viver longe, na foz dos rios.”

*

Para conhecer o Dilúvio bíblico contido no livro do Gênesis, venha por aqui.

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O Dilúvio No Gênesis Bíblico

Com a estreia de Noé nos cinemas, inicio uma pequena pesquisa sobre os mitos do dilúvio, que talvez seja, depois da própria Cosmogonia, o mito mais difundido.

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(…)

Gênesis 6
O AUGE DA CORRUPÇÃO

1. Quando os homens se multiplicaram sobre a terra e geraram filhas,

2. os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e escolheram como esposas todas aquelas que
lhes agradaram.

3. Javé disse: “Meu sopro de vida não permanecerá para sempre no homem, pois ele é carne, e não viverá

mais do que cento e vinte anos”.

4. Nesse tempo − isto é, quando os filhos de Deus se uniram com as filhas dos homens e geraram filhos − os
gigantes habitavam a terra. Esses foram os heróis famosos dos tempos antigos.

5. Javé viu que a maldade do homem crescia na terra e que todo projeto do coração humano era sempre mau.

6. Então Javé se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra, e seu coração ficou magoado.

7. E Javé disse: “Vou exterminar da face da terra os homens que criei, e junto também os animais, os répteis e
as aves do céu, porque me arrependo de os ter feito”.

8. Noé, porém, encontrou graça aos olhos de Javé.
O JUSTO PRESERVA A VIDA

9. Eis a história de Noé. Noé era um homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, e andava com Deus.

10. Noé gerou três filhos: Sem, Cam e Jafé.

11. A terra se corrompera diante de Deus e estava cheia de violência.

12. Deus viu a terra corrompida, porque todo homem da terra tinha se corrompido em seu comportamento.

13. Então Deus disse a Noé: “Para mim, chegou o fim de todos os homens, porque a terra está cheia de
violência por causa deles. Vou destruí−los junto com a terra.

14. Faça para você uma arca de madeira resinosa; divida em compartimentos e calafete com piche, por dentro
e por fora.

15. A arca deverá ter as seguintes dimensões: cento e cinqüenta metros de comprimento, vinte e cinco de
largura e quinze de altura.

16. No alto da arca, faça uma clarabóia de meio metro, como arremate. Faça a entrada da arca pelo lado; e
faça a arca em três andares superpostos.

17. Eu vou mandar o dilúvio sobre a terra, para exterminar todo ser vivo que respira debaixo do céu: tudo o
que há na terra vai perecer.

18. Mas com você eu vou estabelecer a minha aliança, e você entrará na arca com sua mulher, seus filhos e as
mulheres de seus filhos.

19. Tome um casal de cada ser vivo, isto é, macho e fêmea, e coloque−os na arca, para que conservem a vida
juntamente com você.

20. De cada espécie de aves, de cada espécie de animais, de cada espécie de todos os répteis da terra, tome
com você um casal, para os conservar vivos.

21. Quanto a você, ajunte e armazene todo tipo de alimento; isso vai servir de alimento para você e para eles”.

22. E Noé fez tudo como Deus havia mandado.

Gênesis 7

1. Javé disse a Noé: “Entre na arca com toda a sua família, porque você é o único justo que encontrei nesta
geração.

2. Tome sete pares, o macho e a fêmea, de todos os animais puros; tome um casal, o macho e a fêmea, dos
animais que não são puros;

3. e tome também sete pares, macho e fêmea, das aves do céu, para perpetuarem a espécie sobre toda a terra.

4. Porque eu, daqui a sete dias, farei chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites, e eliminarei
da face da terra todos os seres que eu fiz”.

5. E Noé fez tudo como Javé havia mandado.

O RETORNO AO CAOS

6. Noé tinha seiscentos anos quando o dilúvio veio sobre a terra.

7. Noé, com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, entrou na arca para escapar das águas do
dilúvio.

8. Dos animais puros e impuros, das aves e dos répteis,

9. entrou um casal, macho e fêmea, na arca de Noé, conforme Deus havia ordenado a Noé.

10. Depois de sete dias, veio o dilúvio sobre a terra.

11. Noé tinha seiscentos anos quando se arrebentaram as fontes do oceano e se abriram as comportas do céu.
Era exatamente o décimo sétimo dia do segundo mês.

12. E a chuva caiu sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites.

13. Nesse mesmo dia, entraram na arca Noé e seus filhos Sem, Cam e Jafé, com a mulher de Noé e as três
mulheres de seus filhos;

14. e, com eles, as feras de toda espécie, animais domésticos de toda espécie, répteis de toda espécie, pássaros
de toda espécie, todas as aves, tudo o que tem asas.

15. Com Noé entrou na arca um casal de tudo o que é criatura que tem sopro de vida;

16. e os que entraram, eram um macho e uma fêmea de cada ser vivo, conforme Deus havia ordenado. E Javé
fechou a porta por fora.

17. Durante quarenta dias caiu o dilúvio sobre a terra. As águas subiram e ergueram a arca, que ficou acima da
terra.

18. As águas subiram e cresceram muito sobre a terra. E a arca flutuava sobre as águas.

19. As águas subiam cada vez mais sobre a terra, até cobrirem as montanhas mais altas que há debaixo do céu.

20. A água alcançou a altura de sete metros e meio acima das montanhas.

21. Pereceram todos os seres vivos que se movem sobre a terra: aves, animais domésticos, feras, tudo o que
vive sobre a terra e todos os homens.

22. Morreu então tudo o que tinha sopro de vida nas narinas, isto é, tudo o que estava em terra firme.

23. Desapareceram todos os seres que estavam no solo, desde o homem até os animais, os répteis e as aves do
céu. Foram todos extintos da terra. Ficou somente Noé e os que com ele estavam na arca.

24. E a enchente encobriu a terra durante cento e cinqüenta dias.

Gênesis 8
A NOVA CRIAÇÃO

1. Então Deus se lembrou de Noé e de todas as feras e animais domésticos que estavam com ele na arca. Deus
fez soprar um vento sobre a terra, e as águas baixaram.

2. As fontes do oceano e as comportas do céu se fecharam, a chuva parou de cair,

3. e as águas, pouco a pouco, se retiraram da terra. As águas se retiraram depois de cento e cinqüenta dias.

4. No décimo sétimo dia do sétimo mês, a arca encalhou sobre os montes de Ararat.

5. E as águas continuaram escoando até o décimo mês, e no primeiro dia do décimo mês apareceram os picos
das montanhas.

6. No fim de quarenta dias, Noé abriu a clarabóia que tinha feito na arca,

7. e soltou o corvo, que ia e vinha, esperando que as águas secassem sobre a terra.8. Então Noé soltou a pomba que estava com ele, para ver se as águas tinham secado sobre a terra.

9. Ora, a pomba, não encontrando lugar para pousar, voltou para Noé na arca, porque havia água sobre toda a
superfície da terra. Noé estendeu a mão, pegou−a e a fez entrar junto dele na arca.

10. Esperou mais sete dias, e soltou de novo a pomba fora da arca.

11. Ao entardecer, a pomba voltou para Noé, trazendo no bico um ramo novo de oliveira. Desse modo, Noé
ficou sabendo que as águas tinham escoado da superfície da terra.

12. Noé esperou mais sete dias; e soltou novamente a pomba, que não voltou mais.

13. Foi no ano seiscentos e um da vida de Noé, no primeiro dia do primeiro mês, que as águas secaram sobre a
terra. Noé abriu então a clarabóia da arca, olhou e viu que a superfície do solo estava seca.

14. No vigésimo sétimo dia do segundo mês, a terra estava seca.

15. Então Deus disse a Noé:

16. “Saia da arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos.

17. Todos os seres vivos que estão com você, todos os animais, aves e répteis, faça−os sair com você: que
encham a terra, sejam fecundos e se multipliquem na terra”.

18. Então Noé saiu com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos;

19. e todas as feras, animais domésticos, aves e répteis saíram da arca, uma espécie depois da outra.

20. Noé construiu um altar para Javé, tomou animais e aves de toda espécie pura e ofereceu holocaustos sobre
o altar.

21. Javé aspirou o perfume, e disse consigo: “Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, porque os
projetos do coração do homem são maus desde a sua juventude. Nunca mais destruirei todos os seres vivos,
como fiz.

22. Enquanto durar a terra, jamais faltarão semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite”.

Gênesis 9

1. Deus abençoou Noé e seus filhos, dizendo: “Sejam fecundos, multipliquem−se e encham a terra.

2. Todos os animais da terra temerão e respeitarão vocês: as aves do céu, os répteis do solo e os peixes do mar
estão no poder de vocês.

3. Tudo o que vive e se move servirá de alimento para vocês. E a vocês eu entrego tudo, como já lhes havia
entregue os vegetais.

4. Mas não comam carne com o sangue, que é a vida dela.

5. Vou pedir contas do sangue, que é a vida de vocês; vou pedir contas a qualquer animal; e ao homem vou
pedir contas da vida do seu irmão.

6. Quem derrama o sangue do homem, terá o seu próprio sangue derramado por outro homem. Porque o
homem foi feito à imagem de Deus.

7. Quanto a vocês, sejam fecundos e se multipliquem, povoem e dominem a terra”.

DEUS GARANTE A VIDA

8. Deus disse a Noé e a seus filhos:

9. “Eu estabeleço a minha aliança com vocês e com seus descendentes,

10. e com todos os animais que os acompanham: aves, animais domésticos e feras, com todos os que saíram
da arca e agora vivem sobre a terra.

11. Estabeleço minha aliança com vocês: de tudo o que existe, nada mais será destruído pelas águas do
dilúvio, e nunca mais haverá dilúvio para devastar a terra”.

12. Deus disse: “Este é o sinal da aliança que coloco entre mim e vocês e todos os seres vivos que estão com
vocês, para todas as gerações futuras:

13. Colocarei o meu arco nas nuvens, e ele se tornará um sinal da minha aliança com a terra.

14. Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco−íris aparecer nas nuvens,

15. eu me lembrarei da minha aliança com vocês e com todos os seres vivos. E o dilúvio não voltará a destruir
os seres vivos.

16. Quando o arco−íris estiver nas nuvens, eu o verei e me lembrarei da aliança eterna: aliança de Deus com
todos os seres vivos, com tudo o que vive sobre a terra”.

17. E Deus disse a Noé: “Este é o sinal da aliança que estabeleço com tudo o que vive sobre a terra”.

18. Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram estes: Sem, Cam e Jafé; e Cam é o antepassado de Canaã.

19. Esses três foram os filhos de Noé, e a partir deles foi povoada a terra inteira.

20. Noé, que era lavrador, plantou a primeira vinha.

21. Bebeu o vinho, embriagou−se e ficou nu dentro da tenda.

22. Cam, o antepassado de Canaã, viu seu pai nu e saiu para contar a seus dois irmãos.

23. Sem e Jafé, porém, tomaram o manto, puseram−no sobre seus próprios ombros e, andando de costas,
cobriram a nudez do pai; como estavam de costas, não viram a nudez do pai.

24. Quando Noé acordou da embriaguez, ficou sabendo o que seu filho mais jovem tinha feito.

25. E disse: “Maldito seja Canaã. Que ele seja o último dos escravos para seus irmãos”.

26. E continuou: “Seja bendito Javé, o Deus de Sem, e que Canaã seja escravo de Sem.

27. Que Deus faça Jafé prosperar, que ele more nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo”.

28. Depois do dilúvio, Noé viveu trezentos e cinqüenta anos.

29. Ao todo, Noé viveu novecentos e cinqüenta anos. E morreu.

*

Ela registrou essas fotos impressionantes com animais vivos! 17

Companheiro Animal – Parte II

Fotografias de Katerina Plotnikova.

Veja a parte I desta série com as foto de Steve McCurry.
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O Sexo das Índias – Iniciação e Fertilidade – Parte I

Encontrei este vídeo em Índios de Todas as Tribos.  Inauguro com ele uma série de registros de rituais de fertilidade e iniciação ligados ao sexo. Aqui, mulheres maduras e jovens invadem as cabanas dos homens, forçam-nos a praticar o sexo; e se os homens fogem, saem em sua captura, provocando-os, xingando-os, dispostas mesmo a feri-los. O comportamento dos nativos, suas canções e provocações (índias não gostam de pau pequeno!) são de uma doçura ímpar. Dê aí suas gargalhadas.

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Se souber mais detalhes sobre o ritual, mesmo de que tribo se trata, por favor, entre em contato através do formulário de mensagem. Um abraço!

 

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Por que o sol mora no leste?

Natalie Curtis, no The Indians’ Book, publicado em 1907, cita um notável mito sobre a origem do mundo, que lhe foi contado por um idoso chefe pima, Falcão-que-paira-no-alto:

No início só havia trevas em toda parte — trevas e água. A escuridão se tornava mais forte em certos lugares, acumulando-se e em seguida se separando, até que,finalmente, de um dos lugares onde as trevas haviam se juntado saiu um homem. Esse homem vagueou pelas trevas até que começou a pensar; ele descobriu então a si mesmo e que era um homem; ele soube que estava ali para algum fim.

Pôs a mão sobre o coração e puxou para fora um grande cajado. Usou-o para ajudá-lo a mover-se pela escuridão, e quando ficava cansado, nele se apoiava. Depois, criou pequenas formigas. Tirou-as do corpo e colocou-as sobre a vara. Tudo que fazia tirava do corpo, da mesma forma que havia tirado o cajado do coração. O cajado era de arbusto espinhoso e graxento, e da cera da madeira as formigas fizeram uma bola redonda em cima do cajado. O homem tirou a bola do cajado, e na escuridão colocou-a sob o pé, e em cima dela, rolou-a e cantou:

Eu faço o mundo, e vejam!,
O mundo está feito.
Assim, eu fiz o mundo, e vejam!,
O mundo está feito.

E assim ele cantou, chamando a si mesmo de criador do mundo. Cantava devagar, e durante todo o tempo a bola aumentava de tamanho enquanto a rolava sob o pé, até que, no fim da canção, vejam só, a bola era o mundo. Ele, nesse momento, passou a cantar mais rápido:

Que ele vá, que ele vá,
Que ele vá, que comece!

E assim o mundo foi criado, e nesse momento o homem tirou de dentro de si uma pedra e dividiu-a em pequenos pedaços. Deles fez as estrelas e colocou-as no céu para iluminar a escuridão, Mas as estrelas não eram suficientemente brilhantes. E assim ele criou Tau-mik, a Via-láctea. Mas Tau-mik não era suficientemente brilhante. Em seguida, criou a lua. Tudo isso fez de pedras que tirava de dentro de si mesmo. Mas nem mesmo a lua era suficientemente brilhante. Em vista disso, começou a pensar no que faria em seguida. Não podia tirar de si mesmo nada que pudesse iluminar a escuridão.

Mas pensou. E de si mesmo fez duas grandes tigelas, encheu uma de água e cobriu-a com a outra. Sentou-se e observou as tigelas, e enquanto as observava, desejou que o que queria criar realmente acontecesse. E aconteceu como ele desejou, pois a água da tigela transformou-se no sol, que brilhou em raios através das fendas nos lugares onde as duas tigelas se tocavam. Ao ser criado o sol, o homem tirou a tigela de cima, puxou o sol para fora e jogou-o no Leste. O sol, porém, não tocou o solo. Permaneceu no céu onde ele o jogara, e nunca se moveu. Em seguida, da mesma maneira, jogou o sol para o Norte, o Oeste e Sul. Mas, em todas as ocasiões, ele simplesmente ficava no céu, imóvel, pois nunca tocava o chão. Em vista disso, jogou-o mais uma vez para o Leste, e, desta vez, ele tocou o chão, quicou e começou a subir. Desde então, o sol nunca mais deixou de mover-se. Faz a volta do mundo em um dia, mas, todas as manhãs, tem que quicar de novo no Leste.

*

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in: CAMPBELL, Joseph. O Vôo do Pássaro Selvagem: Ensaios sobre a universalidade dos mitos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. pag. 83 e 84, Tradução de Ruy Jungman.

labyrinth

A CASA DE ASTÉRION

E a rainha deu à luz um filho

Que se chamou Astérion.

APOLODORO: Biblioteca, III, I

Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei a seu devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de minha casa, mas também é verdade que suas portas (cujo número é infinito*) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas feminis nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Assim, encontrará uma casa como não há outra na face da Terra. (Mentem os que declaram que no Egito existe uma parecida). Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra história ridícula é que eu, Astérion, sou um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não há uma fechadura? Além disso, num entardecer pisei a rua; se antes da noite voltei, fiz isso pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e achatados, como a mão aberta. Já havia se posto o sol, mas o desvalido choro de uma criança e as toscas preces da grei disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, prosternava-se; alguns trepavam no estilóbata do templo dos Machados, outros juntavam pedras. Algum, creio, ocultou-se sob o mar. Não em vão foi uma rainha minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modéstia o queira.

O Fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escritura. As maçantes e triviais minúcias não têm espaço em meu espírito, que está capacitado para o grande; jamais reti a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. Às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.

Claro que não me faltam distrações. Igual ao carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até rolar ao chão, nauseado. Escondo-me à sombra de uma cisterna ou à volta de um corredor e finjo que me procuram. Existem terraços de onde me deixo cair até me ensangüentar. A qualquer hora posso fingir que estou adormecido, com os olhos fechados e a respiração poderosa. (Às vezes durmo realmente, às vezes está mudada a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de tantas brincadeiras, a que prefiro é a do outro Astérion. Finjo que vem visitar-me e que lhe mostro a casa. Com grandes reverências digo-lhe: Agora voltamos à encruzilhada anterior ou Agora desembocamos em outro pátio ou Bem dizia eu que te agradaria o canalete ou Agora verás uma cisterna que se encheu de areia ou Já verás como o porão se bifurca. Às vezes me confundo e nos rimos agradavelmente os dois.

Não só tenho imaginado esses jogos; também tenho meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, uma manjedoura; são quatorze [são infinitos] as manjedouras, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Contudo, por força de esgotar pátios com uma cisterna e poeirentas galerias de pedra cinza, alcancei a rua e vi o templo dos Machados e o mar. Não entendi isso até que uma visão da noite me revelou que também são quatorze [são infinitos] os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, quatorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: acima, o intrincado Sol; abaixo, Astérion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o Sol e a enorme casa, mas já não me recordo.

A cada nove anos entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo mal. Ouço seus passos e sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente a procurá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensangüente as mãos. Onde caíram ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem são, mas sei que um deles profetizou, na hora de sua morte, que algum dia chegaria o meu redentor. Desde então não me dói a solidão, porque sei que vive meu redentor e no fim se levantará sobre o pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Tomara que me leve a um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? pergunto-me. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com rosto de homem? Ou será como eu?

O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não havia nenhum vestígio de sangue.

– Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu –. O minotauro mal se defendeu.

Jorge Luis Borges

 Tradução de Marcelo Bueno de Paula

*

The House of Asterion

And the queen gave birth to a child

who was called Asterion.

Apollodorus Bibliotecha III, I

I know they accuse me of arrogance, and perhaps misanthropy, and perhaps of madness. Such accusations (for which I shall exact punishment in due time) are derisory. It is true that I never leave my house, but it is also true that its doors (whose numbers are infinite) (footnote: The original says fourteen, but there is ample reason to infer that, as used by Asterion, this numeral stands for infinite.) are open day and night to men and to animals as well. Anyone may enter. He will find here no female pomp nor gallant court formality, but he will find quiet and solitude. And he will also find a house like no other on the face of this earth. (There are those who declare there is a similar one in Egypt, but they lie.) Even my detractors admit there is not one single piece of furniture in the house. Another ridiculous falsehood has it that I, Asterion, am a prisoner. Shall I repeat that there are no locked doors, shall I add that there are no locks? Besides, one afternoon I did step into the street; If I returned before night, I did so because of the fear that the faces of the common people inspired in me, faces as discolored and flat as the palm of one’s hand. the sun had already set ,but the helpless crying of a child and the rude supplications of the faithful told me I had been recognized. The people prayed, fled, prostrated themselves; some climbed onto the stylobate of the temple of the axes, others gathered stones. One of them, I believe, hid himself beneath the sea. Not for nothing was my mother a queen; I cannot be confused with the populace, though my modesty might so desire. The fact is that that I am unique. I am not interested in what one man may transmit to other men; like the philosopher I think that nothing is communicable by the art of writing. Bothersome and trivial details have no place in my spirit, which is prepared for all that is vast and grand; I have never retained the difference between one letter and another. A certain generous impatience has not permitted that I learn to read. Sometimes I deplore this, for the nights and days are long.

Of course, I am not without distractions. Like the ram about to charge, I run through the stone galleries until I fall dizzy to the floor. I crouch in the shadow of a pool or around a corner and pretend I am being followed. There are roofs from which I let myself fall until I am bloody. At any time I can pretend to be asleep, with my eyes closed and my breathing heavy. (Sometimes I really sleep, sometimes the color of day has changed when I open my eyes.) But of all the games, I prefer the one about the other Asterion. I pretend that he comes to visit me and that I show him my house. With great obeisance I say to him “Now we shall return to the first intersection” or “Now we shall come out into another courtyard” Or “I knew you would like the drain” or “Now you will see a pool that was filled with sand” or “You will soon see how the cellar branches out”. Sometimes I make a mistake and the two of us laugh heartily.

Not only have I imagined these games, I have also meditated on the house. All parts of the house are repeated many times, any place is another place. There is no one pool, courtyard, drinking trough, manger; the mangers, drinking troughs, courtyards pools are fourteen (infinite) in number. The house is the same size as the world; or rather it is the world. However, by dint of exhausting the courtyards with pools and dusty gray stone galleries I have reached the street and seen the temple of the Axes and the sea. I did not understand this until a night vision revealed to me that the seas and temples are also fourteen (infinite) in number. Everything is repeated many times, fourteen times, but two things in the world seem to be repeated only once: above, the intricate sun; below Asterion. Perhaps I have created the stars and the sun and this enormous house, but I no longer remember.

Every nine years nine men enter the house so that I may deliver them from evil. I hear their steps or their voices in the depths of the stone galleries and I run joyfully to find them. The ceremony lasts a few minutes. They fall one after another without my having to bloody my hands. They remain where they fell and their bodies help distinguish one gallery from another. I do not know who they are, but I know that one of them prophesied, at the moment of his death, that some day my redeemer would come. Since then my loneliness does not pain me, because I know my redeemer lives and he will finally rise above the dust. If my ear could capture all the sounds of the world, I should hear his steps. I hope he will take me to a place with fewer galleries fewer doors. What will my redeemer be like? I ask myself. Will he be a bull or a man? will he perhaps be a bull with the face of a man? or will he be like me?

The morning sun reverberated from the bronze sword. There was no longer even a vestige of blood. “Would you believe it, Ariadne?” said Theseus “The Minotaur scarcely defended himself.”

 (Borges, Jorge Luis. 1964. The house of asteron. In Labyrinths: Selected Stories and Other Writings, ed. Donald A. Yates and James E. Irby, London: Penguin. pp. 170-172)

Samico - fotos João Liberato (9)

Vá buscar Samico

Gilvan Samico é um gênio. Transpôs para plano da gravura a narrativa folclórica e mítica da existência. Viveu com simplicidade, cultivou amigos, família, um mundo próprio. Morreu há pouco, deixando pra nós uma obra de inquietante beleza , simetria e significado. Agora o Centro Cultural da Caixa organiza uma exposição em homenagem a este mestre que, malandramente, soube se fazer pequeno, porque pequenos todos somos diante do tamanho maior dessa vida. Vá buscar Samico!
sam

Conheça algumas gravuras de Samico aqui.

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A Pele Eliminada

Um mito melanésio sobre a morte e a passagem do tempo.

No começo os homens nunca morriam, mas quando atingiam determinada idade eliminavam a pele como as cobras e os caranguejos, e tornavam-se jovens outra vez. Depois de um certo tempo, uma mulher que estava ficando velha foi a um regato para mudar de pele. Desfez-se da pele velha lançando-a a água e notou que ao ser levada pela corrente a pele ficou presa num galho seco. Depois voltou para casa onde tinha deixado o filho. Este, contudo, recusou-se a reconhecê-la, e disse chorando, que sua mãe era uma velha, diferente dessa jovem estranha; e assim, a fim de acalmar a criança, a mãe voltou ao regato em busca de seu tegumento eliminado e vestiu-o novamente. Desde então os seres humanos deixaram de eliminar a pele e começaram a morrer.

Anotado por Mircea Eliade em O Conhecimento Sagrado de Todas as Eras, editora Mercúrio, página 95.

A Melanesian myth about death and the passage of time.

At the beginning, humans never die, but when they reached a certain age eliminated the skin like snakes and crabs, and became young again. After a while, a woman who was getting old was a stream to change skin. Broke up the old skin throwing her water and noticed that the current be carried by the skin stuck in a dead branch. Then returned home where he had left his son. This, however, refused to recognize it, and said, weeping, that his mother was an old, different this strange young man, and so in order to calm the child, the mother returned to the creek in search of his integument and eliminated dressed again. Since humans failed to remove the skin and started to die.

Mircea Eliade, in Essential Sacred Writings From Around The World, ed. Harper & Collins

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eros e psique

Eros e Psique

Fernando Pessoa, nos cem anos da criação de seus heterônimos:

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

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