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Uma Introdução ao Mito

 

Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo.

Sobre Mito e Mitologia

Mitos são histórias da busca feita através dos tempos por uma experiência totalizante da alma. Por isso, de modo geral, são elaborados em linguagem paradoxal: para se contrapor à lógica diária, o mito precisa quebrar o paradigma do sentido perfeitamente apreensível, do contrário, não representaria um desafio à compreensão, e perderia sua função centralizadora, curativa, ordenadora. À partir dessa contradição dramatizada podemos perscrutar os recônditos incompreensíveis da alma. Promovendo o encontro entre instâncias opostas da verdade, o mito fornece ferramentas simbólicas para autoconhecimento, na medida em que essas formas são geradas e mantidas pelo Inconsciente Coletivo, aquela camada comum a todo indivíduo que conecta os povos e disposições individuais mais distantes.

O Inconsciente Coletivo é preenchido por toda a herança da História, mesmo a nível molecular, e sendo atemporal, guarda também o dado futuro. Uma vez sua capacidade de articulação do drama psíquico é inalcançável na totalidade, e não cessa, portanto, de surpreender. Não seria ilícito afirmar que o seu potencial é ilimitado. A partir do Inconsciente Coletivo, há unidades mobilizadoras, capazes de organizar os conteúdos inconscientes numa configuração mais ou menos apreensível. Essas forças são chamadas Arquétipos, princípios ordenadores que estabelecem uma identidade representativa que podem ser lidas de forma simbólica.

Os arquétipos são os mobilizadores dos Mitos. São eles que lhes inspiram a forma. Por isso os temas mitológicos são sempre os mesmos: a criança divina, o roubo do fogo, A Criação a partir do caos, a jornada do herói…

Toda civilização conheceu e conhece seus mitos. Eles são responsáveis por dramatizar as disposições psíquicas consteladas para aquele povo e seus indivíduos. Debruçar-se sobre o mito, então, é tomar contato com a herança psíquica daqueles que nos precederam, é estabelecer um elo com a dimensão atemporal da experiência humana como espécie, e assim, fazer cair o véu do tempo e fundamentar uma eternidade.

Até o século passado, era corrente a ideia de que os mitos configuravam ou a história factual do humano, ou a pura falácia para entreter incautos. Foi Carl Gustav Jung, quem formulou, a partir da experiência no sanatório e da experiência atenta da própria vida, que toda a psique humana radica sobre um inconsciente coletivo, cuja herança nos toca a todos, e que, sendo dotado de arquétipos universais, o inconsciente coletivo se expressa também através de mitos, dramatizando nossa condição anímica essencial. As ideias de Jung revolucionaram o modo de pensar a espécie humana e a própria função da Natureza em revelar-se a si mesma.

Em Fevereiro daremos início ao curso de Introdução ao Mito, com os principais temas da mitologia, numa imersão em 12 aulas pela dimensão simbólica da experiência humana. Abaixo, você pode acompanhar os temas das aulas. Todo o assunto virá acompanhado de ilustrações, vídeos, textos, sobre o assunto.  No final da apresentação, você confere os dados de custo, contatos e local.

As aulas presenciais ocorrerão no Largo do Machado, e as aulas online, à maneira do curso Jornada Para a Alma (conheça aqui), via hangout (ferramenta intuitiva de videoconferência). Para aqueles que não puderem estar presentes na aula presencial ou que precisarem faltar a aula online, todos os encontros serão gravados e ficarão disponíveis.

Clique para ler a ementa

Introdução ao Mito – Apresentação – Ementa – Dados

NA PRIMEIRA AULA, faremos um panorama sobre as ideias de Jung. Aprofundaremos reflexões sobre os modos de atuação do Inconsciente Coletivo e dos Arquétipos. A noção de que a psique se expressa através de símbolos, e são esses símbolos os responsáveis por mediar o contato com o inconsciente para uma experiência única de entendimento. Falaremos sobre os Sonhos e de quando são mobilizados por influxos arquetípicos, quando se aproximam dos mitos em forma e atuação. O mito como sonho coletivo, o sonho como mito individual.

NA SEGUNDA AULA, traçaremos um panorama geral sobre o mito, desde a antiguidade até os dias atuais, em seus traços básicos e fundamentais, e como este fenômeno tem sido interpretado desde então. Buscaremos entender o mito em suas mais variadas funções, desde a sua função história, de ser um espelho de dados imaginários sobre os quais os homens lançam suas projeções de realização, passando pela função ritualística, do mito como dramatizador e justificador do rito, e mais adiante, sua função metafórica, capaz de propor possibilidades múltiplas de sentido para vida; finalmente, pensarmos sua função transcendente, aquela que é capaz de nos colocar em contato com o dado mais íntimo da psique universal.

NA TERCEIRA AULA, faremos uma viagem através das primeiras formas de manifestação do mito, as relações entre homem e animal, o totemismo, as pistas de inscrições rupestres, os sacrifícios de sangue e os ciclos lunares associados ao feminino e às colheitas. Vamos ver que estas formas, embora remontem ao mais antigo momento legível do passado ancestral humano, continuam bem vivas em nós, nos dias de hoje.

NA QUARTA AULA, retornaremos a um tempo ainda mais longínquo, onde as coisas sequer existiam, e tudo pairava no caos absoluto. Os mitos da criação guardam semelhanças incontornáveis entre si, inclusive com as descobertas e pressupostos mais recentes da Física. Como tudo chegou a ser criado? Por que é que existe algo ao invés de existir nada? O que é a Criação, como ela atua em nós e no mundo? Gregos, Egípcios, Iorubás, Pigmeus, Astecas, Nativo Americanos do Norte e do Sul, todos concordam que o cosmo surgiu da massa amorfa, e tomou forma segundo as disposições inerentes à própria matéria e aos deuses que a moldaram.

NA QUINTA AULA, penetraremos no mistério do feminino a partir de suas muitas faces: a grande mãe: nutridora e castradora, a amante: salvação e ruína, a filha: a encrenca e a liberdade. Os cultos femininos e suas deusas que anseiam por redenção e são elas próprias, cenário e alimento disso.

NA SEXTA AULA nos debruçaremos sobre a figura do Deus masculino. O velho Deus dos Relâmpagos, que há milênios guarda a potência do raio e da ordenação, o Pai protetor e impositivo, o amante, cuja potência é capaz de fecundar a terra mais desolada, ou tornar desolada a terra fértil, e o filho, irresponsável e fundador da nova possibilidade.

NA SÉTIMA AULA, veremos emergir o elemento síntese propiciado pela união dos opostos masculino e feminino: A Criança Divina, como nova possibilidade de existência, a virgindade dos sentidos, a nova experiência no mundo, o desafio do que é frágil, mas guarda em si a potência do forte.

NA OITAVA AULA, conheceremos uma figura de primeira importância, presente em todas as mitologias, com pouquíssimas variações: o Trickster, trapaceiro responsável por desafiar Deuses e Homens, o caminhante entrópico, cujas possibilidades de ação não cessam de surpreender.

NA NONA, DÉCIMA E DÉCIMA PRIMEIRA AULAS, conheceremos o arquétipo do herói. Aquele que percorrerá a jornada pela experiência do sentido de maneira única, enfrentando seus demônios mais perigosos, os desafios mais arriscados. Seja em busca da resignificação pessoal, ou do elixir que curará seu povo, o herói nasceu para desafiar o mundo estabelecido, viajar às profundezas da existência e retornar com o novo conhecimento, transformado pela jornada. Este tema será abordado em três aulas:

A primeira dará conta de mostrar o herói em seu mundo comum, o chamado, as recusas, o desafio de abandonar o território familiar, o encontro com o arauto portador da mensagem, a passagem pelo limiar do mundo conhecido, sob a contingência de vencer um guardião perigoso, e a caída no ventre, o retorno ao útero como morte e regeneração.

A segunda aula tratará do simbolismo mitológico da iniciação: o perigoso caminho de provas, o encontro com as forças mantenedoras da vida (mãe), com as forças ordenadoras (pai), as tentações (amante), a apoteose, em que o herói estabelece a união dos opostos em si e a última bênção antes de percorrer o caminho do retorno ao mundo conhecido com a solução do problema proposto pelo chamado.

A terceira aula contará sobre o retorno do herói à terra natal, a entronização do caminho percorrido, das lições, dos prejuízos e benefícios. É quando o herói é desafiado a contemplar a certeza de sua falibilidade, de sua mortalidade, e ainda assim, de modo mais claro, o quanto participa do mistério da existência como uma potência única e irrepetível. É a vez de outro herói percorrer novos caminhos, e o herói antigo tomar para si a liberdade de ser quem é plenamente.

No nosso DÉCIMO SEGUNDO ENCONTRO, faremos um grande resumo do que significou percorrer esses temas, os desafios e benefícios, os ganhos e aprofundamentos de haver percorrido um caminho em sua inteireza. Confraternizaremos e saudaremos o novo ciclo que estará por vir.

Esperamos que você deseje se juntar a nós. Mitologia é a canção do Universo.

JD Lucas

É pesquisador em Mitologia, Psicologia Analítica e Simbolismo, coordenado do Círculo Mitológico, grupo para o estudo do mito capitaneado pela Fundação Joseph Campbell, como sede na Califórnia – EUA. O Círculo mitológico é o núcleo da RoundTable Mitológica Rio. A iniciativa se expande para todos os continentes, difundindo o mito como reservatório de experiências espirituais, no seu sentido mais amplo e generoso.

21 9 83 93 10 78 – Lucas
jdlucas.contato@gmail.com

Formulário de interesse

(Você que mora em outro estado ou que deseja participar do curso, deixe seus dados no formulário abaixo ou entre em contato pelos canais acima)

 

Jung

Os opostos em nós, por Carl Jung

Carl Gustav Jung deu um passo adiante quando, no decorrer de décadas de trabalho clínico e auto-observação, entendeu que há pelo menos duas disposições típicas nos indivíduos: a introversão e a extroversão. O introvertido é aquele que tem maior tendência à abstração, o extrovertido é aquele que é atraído pela objetividade das coisas. Daí, um grande panorama se descortina: todas as guerras, das maiores às menores picuinhas individuais, têm sua raiz nessas disposições típicas, em que há uma disposição que se apega aos fatos concretos e outra que elucubra para além deles.
Os exemplos são enormes e significativos. Remeto o leitor interessado ao muito famoso, mas pouco lido Tipos Psicológicos (Vol 6 das Obras Completas), onde Jung faz uma imersão no passado da antiguidade clássica e primitiva até os dias atuais, analisando a problemática em nível pessoal e coletivo (com os primeiros teólogos da Igreja, os filósofos gregos, Nietzsche etc.).

Separei um pequeno e significativo trecho desse livro, que se encontra no parágrafo 118 e 133, sobre como poderíamos nós, simples indivíduos, encontrar nos problemas coletivos uma possibilidade de aprofundamento das nossas próprias questões pessoais, e com isso, ensejar uma revolução para além dos pares de opostos que nos compõem.

(…) um problema pessoal, no fundo, e portanto aparentemente subjetivo, ao tropeçar com acontecimentos exteriores, cuja psicologia contém os mesmos elementos do conflito, se agiganta e se transforma em questão geral que atinge a sociedade inteira. Com isto se atribui também ao problema pessoal uma dignidade que não possuía antes, pois na discordância consigo mesmo há sempre algo de depressivo e vergonhoso, sentindo-se a pessoa, tanto para fora como para dentro, na situação de um país desonrado pela guerra civil. Por isso se evita a confissão em público de um problema puramente pessoal, a menos que se padeça de uma sobrestima altamente temerária. Se for possível encontrar e reconhecer a conexão entre o problema pessoal e os grandes acontecimentos contemporâneos, haverá uma libertação da solidão puramente pessoal, adquirindo o problema subjetivo a amplitude de uma questão geral da nossa sociedade toda. A vantagem disso não é pequena quando se pensa na possibilidade de uma solução. Enquanto o problema pessoal só dispõe das parcas energias do interesse consciente pela própria pessoa, concorrem, agora, as forças instintivas da coletividade, somando-se aos interesses do eu e dando lugar a uma situação nova, garantia de novas possibilidades de solução. O que não poderia ser conseguido pela força pessoal da vontade ou da coragem, pode consegui-lo a força instintiva coletiva, possibilitando ao homem vencer obstáculos que antes não podia, com sua força pessoal.”

E, em seguida, no parágrafo 133

(…) para achar e seguir este caminho [transcendente], deve, antes, deter-se longo tempo entre os opostos em cuja direção se bifurcou o caminho original. O obstáculo represa o rio de sua vida. Sempre que ocorre um represamento da libido, os opostos, antes unidos no fluxo constante da vida, se dividem e se enfrentam como adversários, sedentos de batalha. Esgotam-se, então, numa luta prolongada cuja direção e desfecho são imprevisíveis; mas, da energia que perdem, constrói-se aquela terceira coisa que é o começo de um caminho novo.

(…) Não importa o obstáculo com que nos defrontamos – contanto que seja grande – a discordância entre nosso próprio intento e o objeto refratário se transforma, logo, em discordância em nós mesmos. Pois, enquanto luto para subordinar o objeto rebelde à minha vontade, todo o meu ser entra, aos poucos, em relação com ele, em virtude do grande investimento de libido que, por assim dizer, transfere uma parte de meu ser diretamente para o objeto. O resultado é uma identificação parcial de certas porções de minha personalidade com qualidades semelhantes do objeto. Logo que se opera esta identificação, o conflito fica transferido para minha própria psique. Esta introjeção do conflito com o objeto cria uma discordância dentro de mim, tornando-me impotente com relação ao objeto e liberando afetos, sempre sintomáticos de desarmonia interior. Os afetos, porém, provam que me percebo a mim mesmo e que estou, portanto, em condições – se não for cego – de prestar atenção em mim mesmo e de seguir em mim o jogo dos opostos.

Estamos aprofundando o estudo dos Tipos Psicológicos e das Funções  Psíquicas propostas por Jung no curso Jornada para a Alma, utilizando o Tarô de Marselha como ponto de partida para a construção e o aprimoramento de uma visão e experiência simbólica da vida. Assista à aula sobre O Louco, com os principais conceitos da teoria dos tipos de Jung, logo abaixo

Até mais!

 

Jung 3

O Louco e os Tipos Psicológicos

Assista à aula sobre O Louco e sua relação com os Tipos Psicológicos e Funções Psíquicas propostos por Carl Gustav Jung. Você é bem vinda (o) a participar do curso Jornada para a Alma, realizado presencialmente no Rio de Janeiro e online para todo o planeta.

Mais detalhes você descobre em goo.gl/WCLGbO e jdlucas.contato@gmail.com

JD Lucas é mitólogo e escritor. Atualmente, além da Jornada para a Alma, ministra cursos de Introdução ao Mito e Mitologia Afro-Brasileira. É pesquisador membro da Joseph Campbell Foundation, e líder da RoundTable Mitológica Rio de Janeiro, célula do programa de círculos de discussão de Mitologia espalhados por todo o planeta.